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Tropeços gramaticais

Artigo escrito por João Alvarenga, professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura

Ao encerrar o artigo da quinzena passada, prometi esclarecer a diferença entre algumas locuções prepositivas da nossa língua, assunto que sempre gera muita confusão na comunicação diária. Como a linguagem coloquial predomina, as pessoas nem sempre se dão conta dos tropeços cometidos na oralidade.

No fundo, prevalece a ideia de que: “comunicou tá comunicado”, ou seja, no cotidiano, ninguém (com exceção dos professores) fiscaliza o discurso alheio. Porém, a situação se agrava na hora de fazer uma dissertação de vestibular.

Nesse momento, como dizem: “a porca torce o rabo”, porque a banca é rigorosa na análise dos textos, pois o domínio da norma culta é a habilidade mais cobrada. Não é à toa que no Enem tal exigência vem em primeiro lugar, e pode tanto elevar quanto diminuir a nota dos participantes.

Nesse contexto, um “nozinho” muito corriqueiro que, se na fala não é muito notado, na escrita não só evidencia descuido com a língua, como pode mudar completamente o sentido daquilo que se pretende dizer. Refiro-me ao uso correto das expressões: “ao encontro de” e “de encontro a” que, dependendo do contexto, poderá comprometer o sentido da mensagem.

Para que o leitor entenda essa questão, apresento dois exemplos. Situação 1: “O motorista do coletivo perdeu-se no volante e foi de encontro ao poste”; situação 2: “A mãe foi ao encontro do filho”. Em qual das construções temos a ideia de harmonia entre as partes?

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Não é necessário fazer muito esforço para perceber que a segunda frase evidencia um nítido sentido de convergência, pois a mãe foi ao encontro do filho para abraçá-lo. Já, na segunda, temos um claro confronto, ou seja, uma nítida divergência, porque o motorista chocou-se contra um obstáculo. Até aí, tudo bem! O equívoco aparece quando o ocorre a seguinte situação: vamos supor que determinada categoria profissional decidiu entrar em greve para exigir reajuste salarial de 100%.

Mas, como os patrões se negavam a negociar, a greve se arrastou, até que o sindicato patronal apresentou uma contraproposta, muito aquém do que era reivindicado pelos grevistas. Mesmo assim, resolveram voltar ao trabalho, com a seguinte declaração: “paramos o movimento porque a proposta veio ao encontro do que esperávamos”. Aqui, houve deslize, pois deveria ser: “embora a proposta venha de encontro ao que esperávamos, tivemos que voltar…” (houve conflitos de interesse).

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Porém, há situações em que as duas locuções são admitidas. Exemplo: “O jovem foi de encontro ao seu destino”, ou seja, lutará contra seu destino. Nesse arranjo, evidencia-se a indignação do personagem. Já, em: “O jovem foi ao encontro de seu destino”, pode ser entendido como “aceitará o que foi determinado”. Prevalece a resignação. Atenção: nesses casos, fica evidente que isso dependerá das intenções do redator.

Além disso, temos ainda, as expressões: “a par de” e “ao par de” que também motivam dúvidas, pois muitas pessoas ignoram a existência da segunda locução. Para ser claro, lembro que “a par de” poder entendido como alguém que está bem informado.

Exemplo: “O governo está a par das pesquisas sobre as vacinas contra o Covid-19”. Nessa oração, não há como se confundir. Mas, já ouvi esta frase: “Estou ao par do problema”. Nesse arranjo, contrariou-se a essência de tal termo, pois “ao par” expressa uma relação de equivalência ou igualdade entre valores financeiros. Portanto, uma expressão muito presente nos noticiários econômicos. “Veja: O real já esteve ao par do dólar”. Esse assunto pode ser aprofundado no portal: www.soportugues.com.br. Na próxima quinzena, falarei sobre “palavrões e palavrinhas”. Até lá!

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, produz e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa língua sem segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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