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Tormentos da história

O mês de abril coleciona diversas situações inusitadas e engraçadas
Crédito da foto: Divulgação

José Feliciano

Estamos um pouco além da metade do mês de abril e já colecionamos situações inusitadas e tão engraçadas que humoristas temem pelo desemprego dada a insuperável capacidade das nossas autoridades para produzir piadas.

Os exemplos: em 1 de abril, a gráfica que produzia as provas do Enem faliu, não foi uma mentira para comemorar o dia; e o Ministro Ricardo Vélez — que entraria em falência no dia 8 seguinte –, para acalmar os estudantes (quase sem nenhum estresse com essas provas) garantiu que o governo acharia uma gráfica segura, sem riscos de fraudes ou roubos, como ocorridos nos anos anteriores. A certeza que se pode confiar na segurança viria ilustrada na manchete do dia 3/4, quando furtaram uma arma na maior feira de segurança e defesa da América Latina, com o vice-presidente da República presente.

Ainda no dia 2/4 o ministro das Relações Exteriores conseguiu desagradar a palestinos, judeus, alemães e mundo ao afirmar que o nazismo era regime de esquerda. Por pouco ele não foi convidado a refazer o caminho da Via Dolorosa, mas só a parte da crucificação. Essas declarações levaram o presidente Bolsonaro a visitar o Muro das Lamentações em Jerusalém. No dia 3/4, ladrões invadiram e roubaram em uma rádio na zona oeste de São Paulo, enquanto a programação estava no ar com direito a imagens, sons e transmissão pela Internet… por pouco os marginais não pediram música. Criminosos ainda vão virar Youtuber com direito a seguidores e imitadores que, convenhamos, já têm muitos. No dia 4/4 o deputado Zeca Dirceu (PT-PR), referiu-se ao ministro da Economia, Paulo Guedes, como “tigrão” e “tchutchuca”, durante reunião da CCJ no Congresso e não faltaram as tradicionais e injustas lembranças futebolísticas às mães e dessa vez, até avós.

No dia 10/4 um grupo de torcedores do Palmeiras apedrejou o ônibus que levava a delegação do time até seu estádio. Depois do incidente já se pensa em trocar o nome da torcida de Mancha Verde para Manchas Roxas. O Brasil perdeu o certificado de país livre do sarampo, piada sem graça. Com a ameaça da Dengue a níveis preocupantes, provavelmente, a próxima “ave símbolo do Brasil” será o Aedes aegypti.

Em 12/4 o Rio de Janeiro viu como resultados das enchentes, das milícias e do descaso do poder público com o desabamento de dois prédios na região da Muzema, com vítimas fatais. O prefeito deu desculpas esfarrapadas e não explicou como prédios irregulares em áreas protegidas conseguiram ligar água, luz; os moradores recolhiam IPTU? No dia 15/4 o site Antagonista e revista Crusoé foram censurados. Piada velha de humor negro. O picadeiro das reuniões da CCJ para a reforma da Previdência carece só de lona, os ingressos nós já pagamos e caro. E dá para compreender tantos fatos em abril, afinal é o mês do descobrimento do Brasil, dia 22, e morte do, hoje, herói nacional, Tiradentes no dia 21.

Somos resultado das grandes navegações. Cada vez que o Rei de Portugal gritava: — “Ponham velas ao mar!” Portugal ficava às escuras. E quanto aos desvios, a história oficial mostra que o país tem estreita relação com esses desvios, até a nossa descoberta veio de um. Os portugueses queriam ir para as Índias e o desvio deu em terras brasileiras. D. Afonso Sardinha, por exemplo, dizem, ficou assim conhecido porque antes de devorá-lo os índios usaram um abridor de latas. Os poemas escritos na areia por José de Anchieta foram um fracasso editorial porque os portugueses não conseguiram encadernar a praia. D. João VI mandou abrir os portos brasileiros às nações amigas, pois não aguentava mais ver os barcos se “esborrachando” contra o cais. Descobriu-se que as Capitanias não eram apenas hereditárias como altamente contagiosas. Se o descobrimento fosse hoje Pero Vaz de Caminha escreveria a seguinte carta ao Rei de Portugal:

“Aportamos vossa majestade em terras brasileiras. Tão logo gritamos ‘terra à vista’, um nativo prontificou-se a fazê-la a prazo em até 30 meses. Assim que atracamos um silvícola que aqui chamam de ‘flanelinha’, pediu-nos para tomar conta das caravelas ao que um outro pôs-se a limpar as escotilhas das naus. As gentes daqui pareciam nos conhecer há tempos, pois nem bem aportamos, nos puseram bem à vontade inteiramente nus, além de carregarem nossas bagagens, carteiras, umas correntinhas de Nossa Senhora. Levaram até as ceroulas. Talvez devido a viagem, só agora demos pela falta das calotas da nau capitânia. Muito embora não falemos a mesma língua deles, no tratam por ‘manos’. E estamos a nos comunicar com gestos simples numa linguagem rudimentar, eles apontam um objeto para nós e temos que erguer os braços, do contrário corre-se o risco de tomar uma borduna na cabeça, como aconteceu ao nosso vice-almirante, cujas pernas ficaram a estibordo e a cabeça a bombordo depois da porrada. O almirante Cabral foi levado para falar com o líder deles e só não retornou ainda, porque estamos a acertar uns detalhes de um tal ‘resgate’. Cremos, no entanto, que ele esteja ‘béin’, prova disso é que nos trouxeram a orelha do almirante sem nenhum arranhãozinho.”

Já vivemos grandes momentos da história. Tomara não tenhamos que vivenciar grandes tormentos da história!

*José Feliciano — Redator roteirista de humor e mistério — médico descoberto em 1 de abril em terras brasileiras.

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