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Spoiler de vida

02 de Junho de 2019 às 00:01

Spoiler de vida Crédito da foto: Vanessa Tenor

Leandro Karnal

O termo inglês spoiler entrou no nosso vocabulário com força. Toda vez que alguém vai escrever sobre um filme ou seriado, deve colocar um “alerta de spoiler”. Assim, se o leitor prosseguir por sua conta e risco, sabe que poderá ter o final revelado.

Spoiler deriva de espoliar, ou seja, roubar, privar alguém de algo. Há quadros famosos, como o de El Greco na catedral de Toledo (Espanha), que mostram a retirada da roupa de Jesus antes da cruz (El Expolio). Espoliar é retirar, degradar, diminuir, tomar algo. Hoje é lido quase exclusivamente como negar a alguém o privilégio da surpresa do desenlace de uma narrativa.

Não foi sempre assim. Auerbach começa seu clássico Mimesis (1946) comparando com a Odisseia, atribuída a Homero, não trabalha com ansiedade narrativa, diferentemente do episódio do sacrifício de Isaac, no Gênesis. Shakespeare está mais próximo de Homero: revela o final de Romeu e Julieta logo nos primeiros versos. Ninguém teria lido Agatha Christie se a primeira linha denunciasse a identidade do assassino. Já falei disso em outra crônica: vivemos o apogeu da expectativa da tensão dramática; o final é mais importante do que tudo.

“Já viu o último episódio da série X? Não me conte, ainda não assisti”. A tensão narrativa, a ansiedade pela revelação do final do filme, ao que parece, é nosso maior prazer. Isso explica que estejamos longe de clássicos da literatura. O mais importante em Hamlet, por exemplo, é a reflexão sobre a ação, o deleite de cada trecho do monólogo que entremeia cada passo.

Sabemos quem é o assassino no primeiro ato. Hamlet já intuía: “Oh, minha alma profética!” Todos os atos restantes envolvem o aprofundamento da ação sob a desculpa de ter mais certeza. Para Shakespeare, uma revelação bombástica no estilo do clichê mexicano : “Eu não sou seu mordomo, Maria Leocádia, sou seu filho, Filipe Antônio!” não valeria se a trama anterior não fosse um bom texto sobre vingança, bastardia e destino. Assim, raramente no autor inglês a cena final é a melhor de todas ou a mais densa. Hamlet morrendo é menos do que Hamlet vivendo. A floresta subindo a Macbeth é inferior a sua reflexão antes de matar o rei. Comparado com o enredo em si, o final de Othello é previsível. Oposto ao nosso momento, a personagem do Bardo vive para viver e não para fazer fotos que registrem o momento da existência.

Hoje a ansiedade pelo final é tão forte que, quase sempre, existe decepção com o resultado. Cria-se tanta carga de expectativas que existe pouca possibilidade de atender plenamente ao desejo do público. A série Guerra dos Tronos foi espetacular? Sim, responderão milhões de fãs. E o último capítulo? Encontro pouca gente feliz. Grande parte da narrativa da luta pelo trono de ferro foi o vazio do poder, a violência sem sentido, o desespero da morte de personagens centrais, a insanidade e a cobiça desviando quase todos os que detinham força e a impotência do bem. Ao final, era inevitável que o eixo fosse reafirmado. Porém, nossa ansiedade gera uma vontade enorme de redenção dada pela cena derradeira. Vencidos os mortos e incinerados os vivos, que restaria a narrar? Shakespeare gostaria. Era uma Guerra das Rosas com elementos mágicos, um pouco de Ricardo III e Sonho de Uma Noite de Verão narrados por Puck. “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”, diria o poeta de Stratford. Pelo menos, o sentido não pode ser dado apenas pela última cena, mas por todo o processo. Uma grande lição para Westeros, para a Inglaterra e para nós. O esforço da densidade nunca deveria ser um espasmo apenas. Lutar para que apenas o final seja bom parece ser coisa de show fraco, que, não tendo muito a mostrar, enfatiza os fogos de artifício de encerramento. Sempre me pareceu que, quanto mais alta a música da cena final, mais forte a luz e maior a agitação do palco, pior tinha sido a peça. Para uma civilização como a nossa que avalia um texto pelo último capítulo, julga a vida de trabalho pela aposentadoria e pergunta se um casamento foi bom pela maneira que terminou e não pelo tom que existiu antes disso, parece ser um grande desafio.

O filme belga Novíssimo Testamento (Von Dormael, 2016) contém uma cena curiosa. Todos os seres humanos recebem, em seus celulares, o momento exato da sua morte. Assim, a tensão narrativa desaparece e recebemos o final no meio da trama. A maioria reage muito mal à novidade. Como você agiria se soubesse que tem mais seis meses ou dez anos de vida? Como distribuiria o tempo? Como priorizaria atividades? Que coisas deixaria de fazer? O filme leva à discussão do quanto o capítulo final, sendo conhecido, tornaria os anteriores inúteis? Talvez não possamos ter spoiler do nosso final. Talvez por isso não toleramos saber o final de nada antes de viver. Não queremos ser espoliados das nossas expectativas. Porém, contradição da nossa existência, passamos grande parte da vida adulta tomando decisões de saúde, de família e de finanças para que o último capítulo seja escrito do jeito que queremos. O acaso ou Deus, se você preferir, parece sempre ser um autor rebelde. O final é sempre surpreendente. Resta viver bem a série inteira chamada vida da melhor maneira possível. Bom domingo para todos nós!

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado e escreve para o Cruzeiro do Sul.

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