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Sem festa?

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
Sem festa?
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

Parece que não teremos carnaval em 2021. Novidade? Em 1912, a festa foi (oficialmente) adiada pela morte do Barão do Rio Branco. Como somos pouco afeitos a regras, na prática, houve dois carnavais. Ao final, uma marchinha citava até o presidente da República, Hermes da Fonseca: “Com a morte do barão, tivemos dois Carnavá. Ai, que bom, ai, que gostoso, se morresse o marechá”.

Aproveito para transformar o atual grão incômodo em pérola: que tal ler para ocupar o espaço da falta de clima carnavalesco? Sai Momo e entra Palas Atena, o papel do confete vira letras impressas e a cabeça de cima se impõe a tudo. Sugiro, pois, um desfile de livros, alegorias de ideias, apoteose de pensamentos!

Vamos lá com o abre-alas. Sempre adorei Italo Calvino. O italiano nascido em Cuba tem uma escrita criativa e que provoca ideias novas a todo instante. Foi uma grande experiência ler “Cidades invisíveis” e as “Fábulas italianas”. Recentemente, ganhei “Se um viajante numa noite de inverno” (Cia das Letras). Uma obra de vanguarda com um projeto de resgatar a nós, leitores de um mundo complexo e algo melancólico. Será um carnaval de grandes prazeres para pierrôs desiludidos ou colombinas cansadas. Você já fez maratona de uma série? Que tal uma maratona de um autor? Selecionar quatro ou cinco livros de um grande escritor e iniciar uma viagem linda.

Calvino é consagrado, quase parte do cânone. Dê uma chance a gente nova e promissora, já com louvores iniciais: “A estrangeira”, de Claudia Durastanti (Ed. Todavia). A ítalo-americana nascida em 1984 é uma talentosa urdidora de tramas familiares. Em Londres, a autora assinala essa peça curiosa de observação de um olhar agudo: “Caminho rapidamente deixando para trás os ninjas andróginos e fanáticos da saúde que povoam as ruas. Fora estão todos vestidos com indumentária esportiva de guerrilha, todos usam roupas justas e sapatinhos de corrida como se estivessem para saltar no vazio. Tomaram a noite, com seu otimismo ginasta e iodado, e todas as pessoas monstruosas e feias começaram a desaparecer ou a viver em massa nas estações; eu desaprendi a empatia, e agora tenho uma cidadania” (p. 152). Bem, agora você sabe o motivo de essa moça estar recebendo prêmios importantes.

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Seu impulso de garimpar fora do mainstream continua forte? Experimente, da mesma forma, “Rastejando até Belém” (Joan Didion) e “Menino de ouro” (Claire Adam). Os dois romances foram publicados pela Editora Todavia e mostram o talento feminino em plena ebulição.

Com a quaresma à nossa porta, dou uma dica para os religiosos. A biografia de Santo Antônio, feita por Edison Veiga (Planeta), é muito boa. Densa pesquisa do autor, excelente narrativa e uma história que interessará a devotos e não crentes.

A Editora Ideias e Letras traduziu o famoso “Cambridge companion sobre ciência e religião”, organizado por Peter Harrison. Um companion é uma obra que busca revelar o “estado da arte”, uma posição ampla, didática e informativa sobre um tema. Temos companions para Shakespeare, para Estoicismo, para grandes músicas como a Sinfonia Heroica de Beethoven, para os Evangelhos, para a música eletrônica, etc. A obra em questão dá um panorama sobre como foram/são as relações entre a ciência e a religião e desfaz o senso comum de oposição automática que se difunde em muitos meios. O hábito de ler um companion pode ser um bom começo para uma área que você esteja interessado.

Um livro de crítica ao momento que estamos vivendo é o “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”. Vladimir Safatle, Nelson da Silva Jr. e Christian Dunker fazem um cruzamento muito fértil entre psicologia, psiquiatria, ordem econômica e filosofia. Como os indivíduos e a sociedade lidam com as premissas da nova ordem econômica neoliberal? É o livro que provoca pensamentos, independentemente da posição política do leitor e da leitora.

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Falei de livros bons e densos. Que tal aproveitar o curto reinado de Momo para ver ou rever um bom filme? Nada de um filme que esteja “bombando”, mas de um definidor de estéticas ou um marco de talento? “O poderoso chefão” (1972, Coppola) sempre me mostra algo novo sobre poder e família. “Central do Brasil” (1998, Walter Salles) traz dois brilhantes atores: Fernanda Montenegro esbanjando técnica e sentimento e o jovem Vinícius de Oliveira, hoje com 35 anos. Bem mais novo e muito inquietante, dê uma chance a “37 segundos” (Hikari, 2019), obra sobre uma artista de mangás e sua mãe e os debates em torno do capacitismo e os preconceitos sobre deficiência. A diretora japonesa é um nome para levar em conta sempre que aparecer com uma obra.

Os dias pela frente podem ser de tédio, de raiva contida pelas limitações, ou de ferramentas poderosas para criar novos conceitos, debater ideias e questionar nossa zona de conforto. Pode ser um bom livro ou um bom filme, uma conversa estimulante ou a visita virtual a um museu. Voltando à ideia budista e do poeta Drummond, “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Em tempos duros, pensar melhor ajuda muito. Desafie-se. Ouse saber. Encante-se! Bom carnaval!

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Leandro Karnal é historiador e escritor.

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