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Santos Dumont

21 de Julho de 2018 às 15:25

Aldo Vannucchi

"No Brasil, onde nasci em 20 de julho de 1873, o céu é tão belo, os pássaros voam tão alto e planam tão à vontade sobre as grandes asas estendidas, as nuvens sobem tão alegremente na pura luz do dia... que basta levantar os olhos para ficar amante do espaço e da liberdade".

Esse belo começo de biografia é de um brasileiro da maior projeção internacional no século passado. Com seu nome, ele tem ruas em Paris e no Brasil, em Minas e São Paulo. Em Sorocaba, dá nome à avenida do aeroporto. Mais que isso, foi aqui, no dia 7 de setembro de 1931, como ele mesmo relata, estando "a passeio nesta cidade e em seu juízo perfeito e livre de toda e qualquer coação", que registrou, no Cartório Renato, o seu testamento.

Sobra-me razão, portanto, para lembrar Alberto Santos Dumont, que sofre, hoje, um injusto desconhecimento das novas gerações a quem está incluído na galeria dos grandes inventores, com Thomas Edison, Graham Bell e Guglielmo Marconi. Desde cedo, ele se mostrou "amante do espaço e da liberdade", motivado por muita leitura das obras de ficção de Júlio Verne. Logo logo ele passaria dos voos da imaginação para as práticas criativas da sua engenhosidade.

Foi assim que concorreu ao desafio lançado por um milionário francês : "Aquele que conseguir partir do Campo de Saint-Cloud, fazer à volta a Torre Eiffel e voltar ao ponto de partida em 30 minutos, ganhará 100.000 francos". Após cinco tentativas, Dumont cumpriu a missão, em 19 de outubro de 1901, e distribuiu metade do prêmio entre seus mecânicos e auxiliares e a outra metade aos pobres de Paris. Anos depois, Santos Dumont passa dos balões ao aeroplano, o também premiado 14 Bis, com que voou 220 metros em Paris.

Essa surpreendente viagem aérea o Brasil e o mundo puderam reviver, na cerimônia de abertura da nossa Olimpíada, em 2006, realizada no Maracanã, com a representação de Santos Dumont e de uma réplica de sua invenção, o 14 Bis, que sobrevoou a cidade, com auxílio de cabos de aço. Será que esse espetáculo despertou os jovens para conhecer um pouco mais da vida desse notável brasileiro?

E como estamos em julho, calha bem lembrar que, entre ele e a Revolução Constituciuonalista do dia 9 passado, ocorre uma ligação de vida e de morte, porque naquele conflito ele viu, com horror, que a sua maior criação se transformara em máquina de guerra. Chegou até a fazer uma manifestação pública de apelo ao fim da guerra civil, à união e à ordem constitucional. Nove dias depois faleceu. Viera doente da França, um ano antes, e viveu as últimas semanas de vida num hotel no Guarujá. Com esclerose dupla, depressão e aquela angústia de ver aviões de combate em solo pátrio, na manhã de 23 de julho de 1932, após caminhar pela praia, o inventor subiu para sua suíte e, sem deixar qualquer mensagem, enforcou-se com duas gravatas presas ao cano do chuveiro.

Em homenagem à memória do imortal pioneiro da aviação, o suicídio interrompeu a guerra por um dia e o presidente Getúlio Vargas decretou luto oficial de três dias no País.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) - [email protected]