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Santo tropical

Artigo de Leandro Karnal
Santo tropical
Crédito da foto: Wikimedia Commons / Obra de Benedito Calixto

Leandro Karnal

A Terra de Santa Cruz não é o mundo da santidade. Compare-se o vice-reino do Peru com a América Portuguesa e a diferença fica gritante. Mesmo áreas não cristianizadas, como o Japão, possuem mais nomes nos altares do que nós. O jejum sagrado começou a ser quebrado no fim do século 20. Frei Galvão foi o primeiro canonizado com passaporte de brasileiro. Irmã Dulce da Bahia é, neste ano, a primeira brasileira nata e ter auréola reconhecida.

O papa João Paulo II havia beatificado José de Anchieta o espanhol que chegou aqui com o segundo governador-geral, em 1553. Depois, com uma carência um pouco constrangedora de milagres de primeira grandeza, o jesuíta foi canonizado pelo seu colega de ordem, papa Francisco. Digamos que Anchieta foi santificado mais pelo conjunto da obra que, sim, é impactante.

O estudante nascido nas Ilhas Canárias foi estudar em Portugal. Tinha várias coisas no currículo, como ancestrais judeus (que seria um obstáculo maior para estudar na Espanha continental), família de ascendência basca apresentando parentesco com Inácio de Loyola, uma doença que o deixaria cada vez mais corcunda e um imenso dom para línguas. Por causa da frágil saúde, foi enviado ao Brasil como estudante ainda não ordenado. Recém-chegado, sua destreza em latim, grego, espanhol e português o estimulou a aprender as várias maneiras de falar tupi na costa do Brasil e a produzir um livro sobre o tema. Na prática, criou uma língua que combinava todas as variantes do tupi, um bom instrumento para a catequese.

José de Anchieta tinha uma capacidade de viajar e produzir quase incompatível com sua saúde. Está presente na organização do esforço dos inacianos pelo Brasil, na fundação de São Paulo de Piratininga, nas capitanias da Bahia e do Espírito Santo, no governo que assumiria a província do Brasil, na atividade de escrever centenas de cartas e muitas peças com objetivo catequético e, ainda, arranjar um tempinho para ser refém em uma delicada negociação entre portugueses, franceses e indígenas. Sua capacidade de versejar em tupi, espanhol e português no mesmo texto de teatro é extraordinária. Seus feitos foram narrados ainda em vida e na investigação logo após sua morte, dada a fama de santidade. Não são impactantes como a levitação de São Francisco de Assis ou o recebimento de estigmas como o futuro padre Pio. Por vezes são milagres “naturais”, como pedir a um grupo de pássaros que voasse sobre a canoa para evitar o excesso de sol ou anunciar que poderia ser encenada a peça ao ar livre, já que as pesadas nuvens de chuva só cumpririam seu intento após a apresentação. Há coisas mais surpreendentes, como a narrativa da ressurreição de um curumim que, doente, precisava de batismo, mas não resistiu. Encontrando o defunto ainda pagão, Anchieta rezou e o menino reviveu a tempo de se tornar cristão e … morrer logo em seguida. Mesmo alcunhado de taumaturgo em vida, ou seja, fazedor de milagres, após seu falecimento em Reritiba (atual Anchieta, ES), poucos milagres foram narrados no seu nome.

Estudei as peças de José de Anchieta no doutorado. Li e reli cada verso (nas traduções do padre Armando Cardoso e nos trabalhos de pesquisa do padre Hélio Abranches Viotti). Entrevistei o padre Hélio no Colégio São Luís e ele narrou o choque entre o jesuíta português Serafim Leite (autor de obra monumental sobre a Companhia de Jesus no Brasil) e os jesuítas brasileiros. O lusitano se irritava com a importância de atribuir tudo a Anchieta e chegou a duvidar da presença do espanhol na fundação de São Paulo, tentando, em esforço nacionalista, deslocar tudo para o português Manuel da Nóbrega. O caso teria despertado até correspondência ácida para Roma, reclamando do nacionalismo infiltrado na cosmopolita Companhia de Jesus.

Na incipiente igreja brasileira do século 16, havia vários projetos para a Companhia de Jesus. Nóbrega, Leonardo Nunes, João de Azpilcueta Navarro, Anchieta e outros nem sempre concordaram sobre o modelo missionário e sobre a questão de bens na jovem ordem. Um mundo de desafios imensos: poucas pessoas, área gigantesca, “vinha estéril” como a metáfora analisada por Charlotte de Castelnau-Lestoile. Houve também desastres como o martírio de muitos missionários a caminho do Brasil, problemas enormes para poucas pessoas e um debate acirrado sobre a ênfase nas vilas ou nas missões, nos colégios para a pequena elite colonial ou nos sertões e as relações com o clero diocesano e outras ordens. O livro “O trato dos viventes” (Luiz Felipe de Alencastro, Cia das Letras) traz ainda o debate e a presença jesuítica no tráfico de escravos no século 16. Nas cartas oficiais, aquelas que deveriam ser lidas nos refeitórios dos colégios europeus, o quadro é outro: tudo vai bem e as provações são testes de Deus superadas pela pertinácia dos jesuítas.

Em nossos dias polarizados, desejam que o nome do jesuíta substitua o de Paulo Freire como patrono da educação no Brasil (projeto do deputado Carlos Jordy, PSL-RJ). A voz de rejeição veio de origem improvável. Os padres Nilson Marostica e Bruno Franguelli, reitor e vice-reitor do Santuário Nacional de São José de Anchieta, lançaram nota repudiando a troca, analisando que seria instrumentalizar o santo “para fins meramente ideológicos”. Para os religiosos, o apóstolo do Brasil seria, igualmente, um “pedagogo do oprimido”.

Faz 422 anos que Anchieta fechou os olhos, em 9 de junho de 1597. Hoje é dia de São José de Anchieta e a Companhia de Jesus voltou a ser uma única província no Brasil. Anchieta, Nóbrega e Vieira continuam sendo elementos centrais para pensar a colônia. A messe continua enorme e com poucos operários. Parece ser uma sina insuperável. Tudo, sempre, para maior glória de Deus, sob o carisma de Inácio, general. Bom domingo para todos nós.

Leandro Karnal é articulista da agência Estado e escreve para o Cruzeiro do Sul.

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