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Sangue bom, sangue ruim

Artigo extraído do livro "Doenças - Conhecer para prevenir", do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes

Mário Cândido de Oliveira Gomes

Uma pergunta frequente nos consultórios médicos: “Doutor, existe sangue bom ou sangue ruim?”. E completa: “Eu acho que o meu sangue não é bom porque a ferida custa pra cicatrizar!”. A bem da verdade não existe tal relação ou tal classificação na medicina. O que realmente existe são portadores de sangues raros. Isto é, de grupos sanguíneos excepcionais, pois tais grupos são classificados em 29 sistemas, sendo possível caracterizar geneticamente a população para os cinco principais: ABO, RH, Kell, Duffy e Kidd. Os mais conhecidos são os grupos ABO, descobertos no fim do século passado pelo imunologista austríaco Karl Landsteiner, e o RH, que também pode gerar reações de incompatibilidade nas transfusões de sangue.

O sangue é um tecido que circula por todo organismo, com a função de transportar oxigênio, nutrientes e substâncias resultantes do trabalho das células. É composto de uma parte líquida, denominada plasma, e uma parte celular formada pelos glóbulos vermelhos (hernácias), brancos (Ieucócitos) e plaquetas. As hemácias contêm um pigmento chamado hemoglobina, que é responsável pela cor vermelha do sangue e pelo transporte de oxigênio dos pulmões para todos os órgãos do corpo. Quando diminui o número de glóbulos vermelhos ou de hemoglobina fala-se em anemia, que comporta numerosas enfermidades.

Os glóbulos brancos são de diferentes tipos, sendo fundamentais para o controle das infecções e defesa do organismo. São eles que combatem diretamente os germes através dos neutrófilos e protegem o organismo por meio dos anticorpos fabricados pelos linfócitos. Nos indivíduos com baixa de linfócitos, como na aids, leucemias, etc, as infecções são frequentes (tuberculose, viroses, micoses, etc). Por sua vez, as plaquetas são fundamentais para a coagulação do sangue. Na sua ausência surgem hemorragias e manchas escuras na pele (hematomas).

Os tipos de sangue estão sendo mapeados para transformar as transfusões em processos mais seguros, evitando principalmente as chamadas doenças hemolíticas, isto é, que destroem os glóbulos por incompatibilidade. Um exemplo clássico é a doença hemolítica do recém-nascido, quando o sangue da mãe é Rh negativo e o do feto, positivo. O mapeamento genético visa, ainda, formar um banco de sangue nacional de doadores através de tipagem do DNA. Entre outras vantagens, o mapeamento deve promover um cadastro de portadores de sangues raros, tornando as transfusões mais seguras.

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No momento já foram descritos mais de 250 antígenos diferentes, que se encontram na membrana das hemácias. Daí a dificuldade do trabalho, pois nos diversos tipos de sangue os antígenos variam, sendo alguns ainda não pesquisados antes das transfusões. A Unicamp já conseguiu identificar 700 doadores específicos, com a meta para alcançar 2 mil. Toda vez que um indivíduo recebe uma transfusão de sangue, o sistema de defesa reage produzindo anticorpos específicos, condição que torna o tipo sanguíneo ainda mais individual, com problemas de encontrar um sangue compatível nas futuras transfusões.

Acontece que existem doenças, como a talassemia do Mediterrâneo, com necessidade de transfusão a cada 3 ou 4 semanas, tornando problemática a escolha de um determinado tipo de sangue compatível. Uma escolha errada aumenta a destruição dos glóbulos vermelhos, sem falar naquela produzida pela própria enfermidade. Além de todos os problemas gerados pela nossa individualidade, ainda existem portadores de infecções, como aids. hepatites B e C, sífilis, doença de chagas, etc, que podem transmitir a doença através da transfusão de sangue, tornando a seleção do doador um procedimento de alta responsabilidade e complexidade. Pode ser que venha daí o nome de “sangue ruim” dado pelo povo aos portadores dessas enfermidades. E de “sangue bom” àqueles que são do tipo O e Rh positivo, isto é, doadores universais.

Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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