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Remissão dos pecados

Artigo escrito por Dom Julio Endi Akamine, arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba

Dom Julio Endi Akamine

Muitos acusam a Igreja de impedir que as pessoas vivam plenamente. Qual é a razão dessa crítica? Uma das razões consiste na oposição inconciliável da Igreja ao pecado: para viver autenticamente é preciso combater o pecado, exatamente porque ele nos impede de viver com Deus e com os irmãos.

A luta contra o pecado está inscrita na natureza de sacramento universal da salvação da Igreja. Ao mesmo tempo que combate o pecado, a Igreja tem consciência de que não é uma comunidade feita só de gente impecável e perfeita. Por isso, lutar contra o pecado equivale a buscar a remissão dos pecados.

Com efeito, a ação redentora e a vitória de Cristo sobre o pecado não são obras somente do passado, mas também é uma ação atual que se dá através da Igreja, em favor de todos os seres humanos de qualquer tempo e lugar. Assim, a remissão dos pecados é vivida pela e na Igreja de maneira consciente, eficaz, pessoal e visível.

Além de Cristo, também o Espírito Santo age na Igreja realizando a “comunhão dos santos” e a “remissão dos pecados”. De fato, a remissão dos pecados só é possível por causa da presença de Cristo e do Espírito Santo na Igreja. É essa presença que suscita a esperança: “se na Igreja não houvesse a remissão dos pecados, nada havia a esperar, não existiria qualquer esperança de uma vida eterna, de uma libertação eterna”.

O cristão consegue a remissão dos pecados, antes de tudo, por meio do batismo que nos torna participantes da morte e ressurreição de Cristo, de tal maneira que “a paixão de Cristo se torna remédio para o batizado como se ele mesmo tivesse sofrido a paixão e a morte” (Santo Tomás de Aquino, Sth, III, 69,2).

O batismo é o ponto de partida da conversão de toda a vida. É ele que permanece o sinal fundamental da existência cristã. É na sua graça inicial que está enraizada a árvore que nós somos e da qual o Senhor tem o direito de esperar bons frutos.

O sacramento da Reconciliação vem como segundo batismo, ou melhor, como “batismo laborioso”. O sacramento da Reconciliação não pode deixar de nos remeter ao nosso estado de batizados — o estado de graça — para fortalecê-lo, desenvolvê-lo e, quando necessário, renová-lo.

A remissão dos pecados inclui, para além desses dois sacramentos, tudo o que de bem se vive e se faz na Igreja. O amor e o serviço aos pobres, doentes e sofredores, a oração e o trabalho, o sorriso pelo bem e as lágrimas pelo mal, a justiça e a caridade, a penitência e a ação de graças, a vida e a morte, tudo o que a Igreja faz é remissão dos pecados. Nesse sentido, ela é como uma imensa usina espiritual de incineração de lixo, uma estação de depuração em plena e contínua atividade. Crer na remissão dos pecados é crer que as faltas cotidianas são cotidiana e eficazmente perdoadas na e pela Igreja.

Na tarde da Páscoa, os discípulos estavam trancados no Cenáculo. Eles tinham medo. Repentinamente, o Senhor ressuscitado se apresenta no meio deles! Após um primeiro momento de alegria, eles recebem sua missão, que vai ser a missão da Igreja. “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós”. Para quem eles são enviados? Para todos, para o mundo inteiro. Para quê? Qual é a missão deles? Jesus sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.

A graça que surge da morte e ressurreição de Cristo para a Igreja é a “remissão dos pecados”. O Espírito é o dom pascal de Jesus para a Igreja a fim de que ela possa desempenhar a sua missão essencial e irrenunciável da “remissão dos pecados”. A efusão do Espírito Santo faz da comunidade dos discípulos missionários o instrumento e o lugar do perdão dos pecados, da vida nova, da vida divina nos homens resgatados do pecado e da morte.

“O Senhor quer que os seus discípulos tenham um poder imenso: Ele quer que os seus pobres servidores façam, em seu nome, tudo quanto Ele fazia quando vivia na terra. Os sacerdotes receberam um poder que Deus não deu nem aos anjos nem aos arcanjos. Deus sanciona lá em cima tudo o que os sacerdotes fazem cá embaixo” (CatIgCat 983).

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba.

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