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Quem seduz reduz?

O comedor de homens não pertence ao intelectual ou ao adolescente segurando o celular
Quem seduz reduz?
Crédito da foto: Timothy A. Clary / AFP

Leandro Karnal

No ano 2000, houve a exposição celebrativa dos 500 anos do “descobrimento do Brasil” no Ibirapuera. No módulo dedicado ao Barroco, Bia Lessa colocou 200 mil flores que chamavam atenção. As imagens estavam lá, belas, plantadas como imenso tapete de procissão com alegoria floral.

Muitos condenaram o impacto cinematográfico que poderia desviar do objeto da exposição. Ainda não era a idade de ouro das selfies. As pessoas iam a museus sem postar nada, acreditem, jovem leitora e jovem leitor. A exposição foi um imenso sucesso.

Os recursos “teatrais” funcionaram e muita gente que nunca tinha visitado algo similar esteve lá, especialmente pessoas sem o hábito de visitar mostras culturais.

O debate se repete e se amplia sempre. Um vídeo de 15 minutos sobre Nietzsche? Impossível captar todas as ideias do pensador, todavia, ele será visto por muita gente. Já fiz dezenas de palestras sobre temas complexos e, com frequência, ouvi que eram superficiais.

Concordo inteiramente, pois o objetivo era a divulgação e não o debate acadêmico. Os temas universitários são de outra espécie. Já vivi a experiência contrária. Um curioso entra na sala da pós-graduação na Unicamp. O tema? A leitura lacaniana de Michel de Certeau sobre o transe místico.

O curioso fica uma hora, mais ou menos. É visível que não está acompanhando o desenvolvimento da ideia que, entre outras coisas, implicava um texto complexo em francês como base da aula. Ele esperava o Leandro que via no YouTube, encontrou o acadêmico.

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Quase sempre desaparecem no intervalo, um pouco incomodados. Não podendo dizer de outra forma, um interessado outsider disse-me após uma aula sobre os processos de Loudun no século 17: “Por que o senhor não fala engraçado e fácil como nas palestras?”.

Para seduzir o grande público, seria necessário reduzir a mensagem? Outro exemplo: fui contactado para ser curador de uma mostra que trataria de ícones em um museu de São Paulo. O evento acabou não ocorrendo, porém quero destacar o debate inicial.

Tínhamos de escolher um título. Os ícones apresentam Jesus, Maria e os santos. Pensei em expressões como “Memória do sagrado”; “Imagens do divino”; “Deus visível” e coisas afins. O cenógrafo sugeriu que o melhor título seria “Sacrou?”.

O neologismo combinaria o sacro com a gíria “sacar”, compreender. Atrairia muitos jovens e conteria um humor com conteúdo. O debate retoma o desafio: seduzir é reduzir?

Na universidade, o compromisso com o lúdico é menor. Ou melhor: imaginamos que a sedução esteja na beleza do tema, na precisão do recorte ou no uso exato dos conceitos.

A mesma exposição “Sacrou” seria, em uma aula da pós: “Leituras iconográficas e iconológicas do imaginário bizantino isáurida”. Promotores de megaexposições amam contabilizar números; acadêmicos admiram títulos complexos para um pequeno grupo de alunos.

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Para vender, muitos livros recebem títulos atrativos. Sempre tem boa “pegada” coisas como “Os tiranos mais cruéis da história”; “As princesas mais loucas da Europa” ou “Os dez homens mais ricos do planeta”.

Tais temas indicam algo claro, com um conhecimento fácil de ser repetido e com um tom anedótico informativo que nunca se esgota.

Estamos falando de dois processos distintos. Um seria um recurso de exposição, como o de Bia Lessa, que não deixa de exibir a riqueza do Barroco colonial, entretanto, adiciona estratégias visuais que podem fazer parte do encantamento.

O impacto de Bia é parte da exposição, pois mostra um pouco do chamado “excesso” que alguns identificam no Barroco. Além de seduzir, ela ampliou a possibilidade, trazendo algo belo e até bem-humorado. Se a exposição voltasse hoje, seria trend topic e totalmente “instagramável”.

Existe outra maneira, a que está em livros com títulos chamativos e conteúdos esquemáticos. No caso, o objetivo está no mercado apenas e não é um recurso, trata-se da obra em si.

Muitos intelectuais e formadores de opinião não gostam da ideia de divulgação. Preferem o eterno elitismo de iluminados que têm pleno domínio retórico e hermético. São os que amam catálogos de arte em que cada parágrafo necessita explicação de um especialista em semiótica.

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Certas ideias são muito complexas mesmo e inúmeros autores não podem ser facilmente divulgados. Isso não impede que mostremos camadas, as mais claras possíveis, e que iniciados e iniciantes possam acessar algo que os conduza a um desejo de saber mais.

Todo processo didático e de ampliação envolve incontáveis desafios. Escrevi isso pensando no mau humor de alguns doutos diante das filas para selfies no Abaporu, da exposição blockbuster de Tarsila do Amaral, no Masp.

Tenho certeza de que alguns prefeririam meia dúzia de notáveis com gola rulê preta olhando para a imagem e pronunciando sentenças sobre as releituras da antropofagia como metáfora da nossa epistemologia associativa mestiça. Sempre imaginei que exista espaço para muitos apreciadores da arte ou do conhecimento.

O comedor de homens não pertence ao intelectual ou ao adolescente segurando o celular. Aliás, o Abaporu é de um argentino. Uns reduzem bastante, outros aprofundam muito e há os que compram tudo… É preciso ter muita esperança e, talvez, algum dinheiro.

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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