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Psicanálise para grupos de risco: quebrando paradigmas

Artigo escrito por Mary Ferraz Nascimento, formada em Filosofia, Línguas e Psicanálise

Mary Ferraz Nascimento

Estamos refletindo sobre novos tempos, novas formas de se viver, após esta pandemia da Covid-19. Precisamos nos reinventar, ressignificar plenamente a vida que segue: QUEBRAR PARADIGMAS.

Enquanto houver desejo de algo próprio, particular, no sacrário íntimo de cada ser, a vida não será em vão. Tenho uma história de amor com livros, pesquisas, busca de conhecimento e, então, minha mente, sempre inquieta, procura um “faz sentido” no desenrolar dos acontecimentos do nosso dia a dia, nas obras de Descartes, Freud, Lacan, Nietzsche e tantos outros intelectuais, marcos de transição histórica no patrimônio cultural da humanidade. Obras eternamente abertas para “escuta”, análise e discussão, o que nos permite novos olhares e novos significados.

Abordagens sem preocupação de conclusões radicais e, no caso da Psicanálise, mantendo-se o caráter revolucionário das teorias metalinguísticas de Freud, que já profetizara a evolução da nova ciência em 1900 e, portanto, não podendo se furtar de participar deste mundo em movimento. Vivemos em tempos imediatistas, áridos, ansiogênicos, deprimentes. Segundo Bauman, tempos fluidos.

Avanços científicos e tecnológicos deste século e as novas e crescentes expectativas de vida nos levam a desconstruir paradigmas do senso comum ou outras ideologias disseminadas por agentes sociais capitalistas e preconceitos internalizados através da família, religião, cultura, infundados e combatíveis. Estudos comprovam que há uma forte relação entre práticas clínicas e transformações sociais como modalidade de gestão e reconfiguração do sofrimento humano.

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Atualmente, há uma tendência a se medicar a subjetividade, a domá-la e impor-lhe regras de adequação, sendo, por isso, necessário dar um “furo” no discurso do já sabido, afirmando-se que existe a possibilidade de psicanálise para idosos fazendo-se o uso da linguagem (talk cure) para perscrutar o inconsciente que é amoral, atemporal e, portanto, não envelhece, valendo dizer que a terapia psicanalítica é uma poderosa prática de subjetivação, mas que procura ressignificar destinos outros para fantasmas e desejos do sujeito, enunciados em palavras (pensamentos), gestos e ações.

Sem querer glamourizar demasiado o índice de longevidade amparado pelas conquistas das ciências, podemos acrescentar doses de sabedoria e aceitação, entendidas não como passividade mas, sim, como novas elaborações mentais. Nem sempre é fácil a reversão de comportamentos, tanto em relação à medicação quanto aos recursos internos. Pensamento e emoção caminham juntos. Somos capazes de pensar nossas emoções e nos debruçar sobre outras faces do real (Lacan).

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Freud nos chama à responsabilidade pelas escolhas ao longo da vida e, em especial, pela própria felicidade que está dentro de cada um de nós. Sartre nos ensina que somos condenados a ser livres (primeiro existimos e, depois, nos essencializamos), e Nietzsche nos diz que o que não nos mata nos fortalece. Aonde quero chegar?

Na teoria freudiana, pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tánatos) coexistem e são referenciais básicos na condução de nossos pensamentos e ações. É preciso continuar desafiando o cérebro e perscrutando nosso inconsciente, buscando novos sentidos para a história de vida.

Trabalhar a mente humana não requer limites e devemos evoluir nos procedimentos, a partir da escola psicanalítica a que se pertença. Nossos sonhos são projetos que sobrevivem ao caos, oxigenam a inteligência e irrigam a vida de sentido e prazer.

O tempo presente deve sempre trazer a ilusão de eternidade, como queria Guimarães Rosa. É do senso comum afirmar-se que, dos cinquenta anos em diante, o ser humano não muda mais suas convicções. Há psicanalistas que também afirmam estarem as defesas do idoso por demais assentadas, um “suposto saber” sacramentado, tornando impraticável a construção de novos discursos sobre si mesmo, desvalorizando-se sua capacidade de sentir, refletir e decidir.

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Em momentos invisíveis, despercebidos, passa o tempo…envelhecemos. O que habita nossas mentes nestes tempos de pandemia?

Mary Ferraz Nascimento é formada em Filosofia, Línguas e Psicanálise.

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