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Poemas para o Ano Novo

26 de Dezembro de 2020 às 00:01

Poemas para o Ano Novo Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

We’ll take a cup of kindness yet

And days of old lang sayne

Robert Burns

Aos nove ou dez anos, eu tinha jeito prático de escolher filmes. Animais (Tarzan e similares), duelo à espada (pirata ou aventura), soco, tiro e poeira (faroestes) eram minha praia. Tinha lágrimas e beijos? Nem me convidem. Trocava o dinheiro da meia-entrada por um picolé ou um copo de capilé. Para quem nunca tomou capilé, explico. Delicioso xarope esbranquiçado feito de avenca. Barato, encontrado em qualquer boteco nos anos 40. Dissolvido em água, era o mais popular dos refrescos.

Eu não assistia dramas. Por via indireta, acabava conhecendo o enredo e a música tema. Minhas irmãs e irmãos passavam dias comentando as cenas mais emocionantes ou trauteando a música tema dos filmes.

Foi o que aconteceu com “A Ponte de Waterloo” (1940), estrelado por Robert Taylor e Vivian Leigh. Jovens se encontram, em Londres, na ponte do mesmo nome. O frio e o fog ajudam a esquentar o romantismo da cena. Oficial inglês, parte para a Guerra.

A namorada bailarina (provavelmente eufemismo para prostituta) luta para sobreviver na velha Londres, à espera do amado, com quem iria se casar após o fim da conflagração. Ele desaparece, dado como morto... Lágrimas aos borbotões.

A música tema virou sucesso em todo mundo. No Brasil, ganhou versão de Alberto Ribeiro e Braguinha (1941). “Adeus amor / eu vou partir / ouço ao longe o clarim (...) Estando em luta / estando a sós / ouvirei a tua voz...” A versão brasileira fala em clarim e luta. Coisa de combatente. Seguramente os autores da versão não se preocuparam com o poema original. Buscaram inspiração diretamente no filme.

Durante o curso colegial, em aula de literatura inglesa, conheci o poema de Robert Burns “For Auld lang syne” escrito em inglês arcaico. Reconheci os versos da valsa que se tornou -- pelo menos para diretores de cinema -- o hino “oficial” do Reveillon.

A partir daí, todos os filmes que apresentam cenas enfocando a passagem de ano colocam a “Valsa da Despedida” na trilha sonora. Ah! Quase ia me esquecendo... À meia-noite os pares se beijam. Como eu cresci (esqueçam que envelheci), passei a preferir beijos a socos e tiros. Triste pensar que, por obra do coronavírus e da insensatez reinante, vivemos hoje com mais socos e tiros que com beijos e abraços.

O original de Burns inclui versos do folclore escocês. Tem mais a ver com Companheirismo e Amizade. “Should old acquitance be forgort?” Podem velhos conhecidos (amigos) serem esquecidos? Esta pergunta abre a valsa da despedida do Ano Velho.

Por aqui, a música mais tocada no Reveillon é outra. Fala em saúde pra dar e vender, e muito dinheiro no bolso. Claro que a essas coisas almejamos. Mas com o SUS em dificuldades para dar, convênios onerosos à venda, e políticos corruptos com dinheiro no bolso às custas da saúde, vamos preferir a valsa com os versos originais de Robert Burns.

Podemos traduzir as linhas que ilustram esta crônica. “Ainda tomaremos uma taça de bondade, por aqueles velhos tempos”. Kindness quer dizer bondade. Mas se você traduzir por magnanimidade, gentileza, amabilidade, benevolência ou afabilidade, não fará feio.

Que eu e vocês, meus prezados leitores, possamos simbolicamente bater taças para brindar amizade, gentileza, bondade, amabilidade, magnanimidade e benevolência nesse despertar de 2021.

Tim! Tim! Saúde!

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.stef[email protected]