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Perseverança: um bom nome ao passado

Artigo escrito por Marcelo Augusto Paiva Pereira, arquiteto e urbanista

Marcelo Augusto Paiva Pereira

É bem-vinda a iniciativa particular de preservar a memória ferroviária deste município, ao querer restaurar a locomotiva a vapor que pertenceu à Estrada de Ferro Sorocabana, atualmente denominada Esperança.

Em uma parceria entre e Fundação Ubaldino do Amaral e a Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana, o propósito é preservar o patrimônio cultural do município, ainda que não tenha sido tombada pelos órgãos competentes (Iphan, Condephaatt ou CMDP).

O objeto da restauração — a locomotiva a vapor — é uma temporalidade porque carrega em si o tempo psicológico e a consciência humana da história que representa. É um símbolo em razão de carregar as cargas valorativas procedentes da cultura da sociedade que a acolheu. Este símbolo assume e transmite significados que dela fazem um bem cultural.

Referido bem cultural tem o escopo de resgatar a memória do passado, trazê-la ao presente, postergá-la ao futuro e fixar as características da identidade cultural para garantir sua preservação e protege-la de interferências estranhas (“extraneus”), que modifiquem ou suprimam a identidade cultural do grupo, sociedade ou povo.

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Nem todas as nossas manifestações são bens culturais. Assim são aquelas que, enquanto temporalidades, simbolizem o lugar e o período social e cultural a que pertenceram, assumam e transmitam significados a serem preservados pelas gerações atuais e futuras.

O helenismo — resultado da mistura de culturas distintas –, promovido por Alexandre Magno durante o expansionismo do seu império pelo Oriente Médio até a fronteira com a Índia, não é bem-vindo por muitos povos, sociedades ou culturas porque inovam os valores em prejuízo (ou supressão) daqueles que antes existiam e compunham as culturas preexistentes.

A restauração, todavia, é um processo crítico de intervenção que deverá proceder cuidadosamente para evitar a falsa identidade temporal do bem. É necessário juízo de valor — crítico — no sentido de examinar o bem em sua totalidade para resgatá-lo em conformidade com as originais características.

Daí não se pode inovar em detalhes, peças ou equipamentos inexistentes no bem cultural ao tempo em que surgiu e serviu à sociedade da época e lugar a que foi destinado. Neste sentido a intervenção o descaracterizará (“ruído”) e o efeito será a memória criada (produzida, mas não resgatada).

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A locomotiva a vapor denominada Perseverança é um símbolo que transmite significados à sociedade desta cidade a serem preservados pelas gerações atuais e futuras. Tais significados fazem dela um bem cultural e enquanto assim for, deverá ser restaurada com as cautelas necessárias à preservação das originais características para preservar a identidade cultural da sociedade à qual foi destinada.

A preservação da memória se faz com o resgate dos bens culturais que a simbolizem e consolidem a identidade do grupo, sociedade ou povo. Enfim, Perseverança é um bom nome ao passado porque ela o traz de volta ao presente e ao futuro! Nada a mais.

Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.

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