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Para receber o benefício da oração

Artigo escrito por dom Julio Akamine
Costela Master Chef
Dom Julio Endi Akamine. Crédito da foto: Manuel Garcia

Dom Julio Akamine

O benefício por excelência da oração não são as graças, mas o Autor de toda graça, ou seja, o próprio Deus. Com efeito, a oração é um clamor que nasce da nossa radical pobreza. Experimentamos que não somos autossuficientes e que não temos como invocar direitos a Deus. Para orar de verdade, devemos nos dar conta de nossa extrema pobreza.
Para receber Deus na oração, porém, é preciso fazer o que Jesus ensina: “orar sempre sem desanimar”. O que significa isso?

Rezar sempre e nunca desistir significa primeiramente rezar com confiança na bondade de Deus. A oração confiante é fonte de energias para começarmos a fazer aquilo que pedimos. Por exemplo: orar pela paz nos leva a começar a semear a paz entre as pessoas; orar para que cessem os sofrimentos, nos leva a ajudar quem sofre; rezar pelos famintos, nos faz partilhar os próprios bens com os carentes. Se pedirmos coisas boas ao Bom Deus, a oração nos tornará mais bondosos com os outros.

Rezar sempre e nunca desanimar significa nos dirigir ao Pai com liberdade filial. O que significa isso? Cada um de nós já fez a experiência de dois tipos de conversa: a experiência de uma conversa em que nos sentimos à vontade. A pessoa com quem conversamos nos é familiar e acreditamos na sua sinceridade. Nós nos olhamos nos olhos e nos entendemos logo, às vezes, até sem palavras.

Não temos necessidade de pesar as palavras porque sabemos que seremos bem compreendidos e, se erramos, seremos corrigidos com amor. Não precisamos dissimular nossos sentimentos nem nossas intenções.

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Outro tipo de conversa é quando não somos livres. Não nos sentimos livres ou porque estamos mentindo ao outro, ou suspeitamos que o outro nos engane. Não confiamos no outro e, dessa forma, continuar a conversa se torna um tormento. Não vemos a hora de encerrar a conversa porque não desejamos continuar dissimulando nossas intenções, nossos sentimentos ou porque não sentimos que o outro seja confiável.

A oração livre é parecida com o primeiro tipo de conversa.

Rezar sempre sem desanimar significa também falar da abundância do coração (Mt 12,34). Oração é uma ação mais do coração do que da memória, mais do desejo do que de repetição de palavras.

Mesmo que eu reze utilizando fórmulas decoradas, a oração sempre é feita mais com o coração e não tanto com os lábios. Deus não cabe nas palavras humanas. Elas devem tocar o mistério de Deus, mas não o devem aprisionar. Fazer da oração uma ação mecânica ou mágica de repetição de fórmulas acaba por contradizer o que as próprias fórmulas têm por finalidade: nos abrir ao mistério da presença e da ação de Deus.

Orar sempre e nunca desanimar significa fazer silêncio: não o silêncio vazio, mas o silêncio habitado pela alegria de estar em companhia de Deus, dos anjos e dos santos; silêncio onde há júbilo do coração por estar na presença de Deus.

Orar sempre e nunca desanimar significa dialogar com Deus, ou melhor, fazer dueto com Ele. O diálogo acontece quando duas pessoas falam alternadamente; dueto é quando duas pessoas cantam em uníssono.

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A oração é diálogo, mas é principalmente dueto. Isso acontece quando nós nos unimos à oração que o Espírito Santo faz em nós. De fato, o Espírito foi derramado em nossos corações, e Ele reza em nós com gemidos inefáveis; Ele reza em nós clamando Abbá! São Bento cunhou um princípio prático nesse sentido: mens nostra concordet verba nostra. A nossa oração deve concordar com a Palavra! Em nossa oração devemos nos esforçar em nos sintonizar à oração do Espírito Santo e à oração da Igreja!

Rezar sempre, e nunca desistir significa carregar dentro de nós mesmos o santuário no qual está presente Deus e no qual podemos entrar sempre para rezar. Assim rezamos também quando estamos ocupados com nossas tarefas cotidianas, seja trabalhando ou estudando, cuidando das pessoas ou caminhando pela rua. Em todos os lugares e momentos trazemos a lembrança de Deus e temperamos tudo com o sal do amor de Deus. Tudo o que fazemos traz a recordação e a luz da presença de Deus.

Você já teve uma pessoa muito amada na qual você pensava a todo momento, mesmo que não estivesse junto dela? Assim é rezar sempre sem nunca desanimar. Temos Deus presente a todo momento e em todos os lugares, não importa a nossa ocupação, não importa se acordados ou dormindo. A lembrança de Deus aflora a cada pessoa que encontro, a cada compromisso que devo realizar, a cada tristeza que enfrento. O nosso coração sempre voa para Deus e se incendeia no íntimo mesmo quando estamos deitados dormindo.

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Rezar sempre, e nunca desistir significa começar a rezar antes de rezar. Tendo momentos fixos de oração, começo a rezar antes desses momentos. Começo a invocar Deus, a rezar pelo desejo, a recolher meu espírito antes do momento fixado da oração. Começo a criar em mim o espírito de reverência que devo ter diante de Deus e, depois, quando chega o momento fixado de oração, me separo das ocupações e preocupações para fixar o olhar do coração e a atenção da mente unicamente em Deus.

Orar sempre e nunca desanimar significa, por fim, pedir: Senhor, ensina-me a rezar! Ficamos distraídos por mil coisas; raramente a nossa oração desce profundamente em Deus e em nós; muitas vezes sentimos que nosso coração é como terra árida e sem água. Reconhecemos humildemente que não conseguimos orar sempre sem nunca desanimar, por isso pedimos essa graça ao Senhor.
Rezemos no íntimo de nós mesmos!

Senhor, ensina-nos a rezar sempre sem nunca desanimar! Tu sabes ensinar não só com palavras, mas nos dás o teu Espírito que reza em nós sempre sem desanimar. Tu podes nos dar neste momento o que não conseguimos conquistar sozinhos! Tu podes nos dar agora com o Espírito Santo!

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