Artigos

O valor do não

Artigo de Leandro Karnal


Leandro Karnal

Já toquei no tema, porém parece necessário voltar a ele. De tempos em tempos, episódios públicos sobre sexo não consentido emergem e dominam o debate público. Fatos, em si já deploráveis, são piorados pelo festival de horrores das opiniões abundantes. Sobre o sexo alheio, temos imensas opiniões, como temos sobre a escalação da seleção brasileira.

Sexo é parte da vida e uma das maiores provas da variedade humana. Os clássicos relatórios sobre a sexualidade (Kinsey, Masters & Johnson, Hite) fizeram-nos ver como pode ser combinado o infinito caleidoscópio humano. As variantes do prazer são abundantes como as pessoas. O que excita ou não cada um está em regiões indevassáveis à lógica formal ou ao senso comum. Quando um grupo descobre que o botão “modo prazer” está em um lugar/prática que outra meia dúzia de indivíduos também o localiza, chama-se a esse modo de “normal”. A prática sexual fala de mim sempre: quando a vivo e quando comento a alheia.

Aliás, práticas eróticas de terceiros são o farol xênon focado nas minhas pudendas, quando as comento. Para mim, educado no questionamento psicanalítico, o procedimento é automático: toda vez que alguém comenta o caso de outra pessoa ou alguma fofoca sobre sexualidade alheia, eu troco mentalmente o sujeito de quem fala da terceira para a primeira pessoa. Aparentemente não existe prazer alheio, só o meu: vivido, projetado, envergonhado, negado, denegado, reprimido ou realizado.

Dito tudo isso, vou em campo oposto. Sexo não é “terra de ninguém”, faroeste do laissez-faire. Existem duas regras clássicas às quais posso fazer adendos. No vasto continente erótico, a constituição tem só duas cláusulas áureas: nunca com menores e nunca contra a vontade de alguém envolvido no ato. O resto pode e até deve. Seu guia é seu desejo, respeitadas as duas premissas anteriores. Você sempre será escravo: do desejo de orgias em Fernando de Noronha ou daquilo que você nega a si pelo prazer de parecer melhor do que os outros. Negar-se pelo reflexo do superego alheio em mim é estranho, porém ocorre. Há um complemento às regras pétreas: respeite seu corpo, não por moral, mas para que ele continue funcional na busca de novos prazeres. Evite excessos incapacitantes, para que você possa continuar na senda do êxtase.

Isso é como eu leio a recomendação do sexto mandamento: não pecar contra a castidade (não fornicar também é redação curiosa…). O que seria a castidade? A violação da ética da vida. Estupro viola a castidade; pedofilia na prática viola a castidade. Sexo consigo… a dois, com objetos, com vídeos, com fantasias, com roupas compradas, a quatro, de quatro, em balanços, na cama, entre amigos ou desconhecidos, tudo vale se não infringir as duas únicas barreiras e for em busca do seu desejo mais profundo. Pode existir sexo antes do casamento? Claro, desde que não atrase muito a cerimônia, algo deselegante.

Qualquer brincadeira à parte, há algo a insistir com filhos, em campanhas educacionais e pela lei. Nunca, jamais, em hipótese alguma relativizar o advérbio de negação no sexo. No mundo comum, um não é passível de muitos debates. “Quer um pouco da mousse de chocolate?” “Não”, eu respondo, com o olhar de cocker spaniel, lambendo os lábios. A gentil anfitrioa sabe que eu quero muito, no entanto preciso de incentivo dela para quebrar a dieta pouco convicta. “Não” pode ser “talvez” e até “sim” nos negócios, à mesa ou na interpretação de uma obra de arte. Na relação sexual, não é apenas não, terminantemente não, exclusivamente não. Isso deve ser enfatizado. Se sua parceira estiver com roupa megaarquiblaster provocativa; se seu companheiro de cama estiver com cintas de couro; se ambos estiverem no motel mais sofisticado, na cama mais circular e com o espelho mais impactante no teto: ali o não continua sendo não. Se você estiver casado com ela, não é não. Se ela tiver se oferecido às 16h e, às 16h04, disser não, o advérbio revoga as disposições anteriores e em contrário. Se você não aceita tal regra, concentre-se na prática individual datilográfica, pois esta é o império da sua civilidade. Sexo a dois (ou mais pessoas) é um contrato de mútua responsabilidade que pode ser rescindido por uma das partes a qualquer momento. “Ah, mas ela parecia uma prostituta.” Bem, meu caro taradinho suburbano, prostituição não é crime no Brasil, estupro sim. “Somos casados há dez anos”: bem, a aliança não pode ser usada na peça de defesa diante do juiz. Estupro é crime com uma desconhecida ou com sua esposa.

Todos deveríamos apresentar um treinamento ao estilo Pavlov: o não deveria encerrar o processo imediatamente como um apito agudo. Impossível? Evite contato com outras pessoas. Não peque contra a castidade. Não seja um canalha. Em punição ilegal, porém de rara sensibilidade psicanalítica, os presídios têm códigos específicos para estupradores. Lá, talvez, a sua fantasia escondida, enfim, encontrará acolhida. Algemas podem ser usadas no curso de uma saudável relação sexual. O não é o código “safe word” que evitará você de sair com algemas diretamente para uma delegacia. É preciso ter esperança, sempre!

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado e escreve para o Cruzeiro do Sul.

Comentários

CLASSICRUZEIRO