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O talento dos seresteiros de Sorocaba

Artigo escrito por Vanderlei Testa, jornalista e publicitário
O talento dos seresteiros de Sorocaba
Crédito da foto: Fotomontagem / VT

Vanderlei Testa

O que você faria hoje se tivesse 81 anos de idade? Opção 1: reclamar das dores do corpo. Opção 2: ficar em casa achando que acabaram as oportunidades da sua vida. Opção 3: usar o seu talento de cantora ou cantor e, com ousadia, participar de programa de televisão para artistas com mais de 60 anos. E como hoje é terça-feira de carnaval e sem festejos, vamos passar o dia relembrando os fatos desta história.

Se você escolheu, como a Catarina Neves a terceira opção, então você ama a sua vida e acredita no dom de cantar. Os apaixonados por música estão inclusos nessa massa popular que assistiu a participação da Catarina Neves no programa The Voice+ da Rede Globo. Ela nasceu em Sorocaba e atualmente mora em Campinas. Se este texto pudesse ser acompanhado de uma música, certamente o leitor estaria agora ouvindo a canção “Linda Flor” (Yayá). O encanto da sonoridade e interpretação, somada a simpatia e sorriso da nossa conterrânea das serestas, Catarina, fez com que os quatro jurados — Daniel, Ludimilla, Claudia Leitte e Mumuzinho — virassem suas cadeiras e aplaudissem a sorocabana.

A repercussão da cantora e do programa nas redes sociais foi imediata. Ótimas vozes e interpretação dos candidatos com as suas músicas renderam à emissora alto índice de audiência. A história da Catarina, anônima sorocabana até essa apresentação, ganhou páginas na imprensa. Ela arriscou tudo o que tinha construído na sua vida para se dedicar à música. Deixou muitas coisas para exercer a sua liberdade de cantora e se arriscar na carreira. Aos 52 anos de idade teve na sua trajetória um novo rumo ao se casar com um jovem de 23 anos de idade. Era cantora em casa noturna quando tudo aconteceu. O jovem paquerador assistia ela cantar e ficou apaixonado por sua voz. E, é claro, pela cantora. A diferença de idade não importava. O amor prevaleceu. Linda história que permanece nestes 29 anos de vida conjugal do mesmo jeito.

Em Sorocaba a seresta acontece há décadas em barzinhos. Conheço muitos cantores dos palcos, das festas familiares e eventos sociais. Quem acompanha a Sueli Maria Menezes Lima nas suas redes sociais pode ver e ouvi-la cantando neste final de semana de carnaval. Outros amigos apaixonados por músicas de serestas sempre estão fazendo suas atrações on-line nesta pandemia. Em uma de suas últimas postagens de vídeo a Sueli interpretou a música “Eu só quero um xodó”. Uma de suas frases favoritas é “tirem-me a música e minha alma ficará surda”. Quem criou essa pérola foi Aldo Della Mônica e faz parte das frases-sentimentos da Sueli, mãe da Bruna Russo.

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Outro cancioneiro das noites é o amigo de juventude Antônio Tabajara. Sua vocação inicial foi no esporte e, em especial no basquete. A música das serestas veio com o tempo. Hoje coloca seu blazer, gravata, ajeita o penteado e distribui sua voz nos microfones da vida com muita energia romântica. Tabajara se realiza por estar nos palcos dos barzinhos, como vi ao lado da cantora Regininha Leite. O conhecido bar dos seresteiros “Tudo azul” teve presença garantida no seu currículo.

Em muitos eventos comunitários e familiares pude apreciar a beleza da voz dos cantores de família, como a do médico pediatra José Roberto Ferreira e do médico cardiologista Bayard Nóbrega de Almeida. Em família, na rede social e nos momentos de confraternização e dos retiros do Movimento das Equipes de Nossa Senhora, esses dois cantores se revelam em um show de interpretação.

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A oportunidade que programas de televisão proporcionam abrindo portas aos artistas com mais de 60 anos comprovou ser sucesso garantido. Além de ter audiência nas tardes de domingo, o The Voice + realiza no ser humano os sonhos deixados para trás em décadas de existência. Não importa nesse caso o estado físico da pessoa ou sua idade. O que vale é o brilho do olhar, a emoção, as lágrimas, tremor e mãos frias de cada artista. Na voz de cada um, homem ou mulher, há um dom de cantar que ressoa aos nossos ouvidos como cantos de anjos celestes.

A saudosa Maria Germani, o Rouxinol Sorocabano, hoje nome de rua no bairro Júlio de Mesquita, foi a primeira mulher seresteira de Sorocaba. Pioneira em apresentações ao vivo nos anos 70. Havia, inclusive, um barzinho na rua Campos Sales que ficou famoso com as músicas noturnas da Maria Germani. Ela faleceu em 1995 e deixou saudade a milhares de fãs que a acompanharam durante décadas.

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E temos a Lucy Lobo encantando com sua voz. Soninha seresteira é uma das cantoras ícones da música em Sorocaba. Mazé e Angelo Muraro também foram seresteiros nas noites da cidade.

Em Piracicaba, cidade de nascimento de meus pais, a Secretaria Municipal da Ação Cultural realiza anualmente, na tradicional rua do Porto, uma edição do projeto “Noite das Tradições”. O Grupo Choro Seresta Sorocaba é sempre convidado. Esse grupo é formado por Nenê Barbosa (violão), Pedro Barbosa (bandolim), Manoel Cardoso (sax e clarinete), Zézinho (cavaco), Amaral (bateria), e Tony Germani. O Grupo Choro Seresta Sorocaba conta com artistas de outros grupos de cantores que já se apresentaram em Piracicaba, como os grupos “Revivendo” e “Atuação”. O repertório composto por choros, sambas, valsas, modinhas e sambas-canções animam centenas de pessoas na praça pública piracicabana.

E como escrevi acima, esta terça-feira de carnaval está silenciosa nas ruas e nos festejos do Brasil. Medida certa das autoridades em não autorizar os desfiles. Mas, apesar do silêncio nas passarelas, os carnavalescos e seresteiros afirmam: vamos manter a música em todas as circunstâncias e manter vivo o bom humor. A alegria é um dom divino. Em 2022, teremos carnaval, com toda a população vacinada. E as nossas serestas curando muita gente da solidão.

Vanderlei Testa é jornalista e publicitário. Escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.blogvanderleitesta.com e www.facebook.com/artigosdovanderleitesta.

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