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O soluço da inflação

Artigo escrito por Celso Ming, jornalista da Agência Estado, especializado em economia

Celso Ming

A inflação de dezembro foi mais um soluço do que a indicação de novo desequilíbrio entre consumo e oferta de produtos. Mas seu impacto não pode ser desprezado.

O avanço de 1,15% de um único mês correspondeu a um terço da inflação acumulada nos 12 meses anteriores. E puxou os números finais de 2019 para a altura dos 4,31%, bem superior aos 3,8% que vinham sendo previstos ao longo das últimas semanas do ano.

Esta foi uma inflação de custos, cujo epicentro foi a disparada dos preços das carnes que, por sua vez, foi consequência do aumento das exportações para a China, duramente atingida pela quebra da produção local pelo alastramento da peste suína.

Tanto a inflação de dezembro é um ponto fora da curva, que os dados instantâneos da Fundação Getúlio Vargas já apontam para um recuo acentuado dos preços das carnes na primeira semana de janeiro.

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Outra indicação que aponta para a mesma direção é o fato de que os núcleos da inflação (dos quais se excluem os preços dos alimentos e dos combustíveis) apontaram para dezembro um avanço de apenas 0,45%. Não houvesse esse choque da carne, a alta do mês não teria sido superior a 0,7%.

Essas ponderações, no entanto, não eliminam as consequências. Uma delas, mais psicológica do que real, tem impacto nada desprezível. Trata-se do avanço da inflação anual de 2019, os tais 4,31%. Apesar de tudo quanto se fez para esvaziar a força da indexação automática (correção monetária) dos preços, esses 4,31% serão evocados para um sem-número de reajustes acima dos esperados que acabarão por realimentar a inflação.

O outro impacto acontece no retorno das aplicações financeiras. Os juros básicos estão a 4,5% ao ano. Uma inflação anual de 4,31% quase eliminou o rendimento real das aplicações em renda fixa, das quais terão de ser subtraídos também o Imposto de Renda e as taxas de administração. Feitas as contas, o aplicador desse segmento do mercado perdeu mais dinheiro do que inicialmente imaginava.

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Nessas horas, pouco funciona o argumento de que não cabem projeções feitas de olho no retrovisor e que é preciso trabalhar com a inflação futura. O problema é que as previsões da inflação também estão sujeitas a trancos inesperados de custos, como as de 2019. Esse é um fator que continuará empurrando para a renda variável aqueles que têm uma reserva para defender contra a perda de valor.

Outro ponto é o efeito sobre a política monetária. Cerca de metade dos analistas vinha prevendo nova redução dos juros básicos (Selic), a ser decidida na próxima reunião do Copom, agendada para 5 de fevereiro. A nova queda da produção industrial em novembro (recuo de 1,2%) deve ter reforçado essa aposta. Como fica isso?

A meta de 2020 (inflação de 4,0%) não está sob risco. Como se viu, esse aumento da inflação do mês passado não está relacionado com acirramento de uma demanda por bens e serviços que precise de correção. Em princípio, não exige corretivo da política de juros. Ainda assim, parece mais provável que o Banco Central prefira esperar para ver como se acomodam os preços antes de voltar a derrubar os juros.

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Celso Ming é jornalista da Agência Estado, especializado em economia.

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