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O sofrimento do intestino preso

A constipação é classificada em sete grupos

Mário Cândido de Oliveira Gomes

A constipação intestinal. também chamada de prisão de ventre ou intestino preso, é uma queixa extremamente frequente nos consultórios. Ocorre em 21% das mulheres e 7,4% dos homens em nosso país, aumentando com a idade. O intestino preso é uma doença da era moderna, influenciada por hábitos alimentares inadequados, poder aquisitivo e grau de desenvolvimento social. Por isso é mais prevalente nas populações das grandes cidades ocidentais, onde predominam as dietas pobres em resíduos. Fala-se em prisão de ventre quando o indivíduo tem menos de três evacuações por semana, apresenta fezes duras, sensação de evacuação incompleta, dificuldade para evacuar ou necessita de manipulação digital para a saída das fezes. Para algumas pessoas o ato de evacuar vem acompanhado de grande sofrimento, em virtude da dor ou da insatisfação na eliminação completa das fezes.

A constipação é classificada em sete grupos, conforme a causa predominante: 1 – primária, por baixa ingestão de fibras na alimentação, sedentarismo e perda do reflexo da evacuação, geralmente observada em jovens que abortam a vontade de evacuar; 2 – medicamentosa, pela ingestão de analgésicos, antiespasmódicos, antidepressivos, alguns grupos de laxantes, etc; 3 – alteração endócrina e metabólica, como baixa função da tireóide, diabetes, aumento de cálcio, etc; 4 – doenças do intestino grosso que provocam estreitamento ou bloqueio da luz intestinal; 5 – doenças neurológicas, como o Parkinson, esclerose múltipla, lesões da coluna, etc; 6 – distúrbios psiquiátricos, como depressão, ansiedade, psicoses, neuroses, etc. e, finalmente,7 – as doenças idiopáticas, quando a causa não é encontrada.

Uma ideia errada difundida pela população é a relação entre a quantidade de comida e a formação do bolo fecal. Com efeito, as pessoas geralmente dizem que tal indivíduo não tem o que evacuar, pois não come nada! A bem da verdade devo esclarecer que as fezes são formadas por fibras da alimentação e uma quantidade absurda de germes. Por isso o bolo fecal se forma mesmo com pouca comida, pois a flora bacteriana continua em franca multiplicação. Os laxantes também têm efeito paradoxal. No começo facilitam a evacuação, porém, com o passar do tempo provocam constipação. Senão, vejamos: no ato de evacuar, o bolo fecal que se encontra no fim do intestino grosso promove o deslocamento progressivo das fezes; o uso de laxantes provoca o esvaziamento total do intestino, sendo necessários dois a três dias para acumular fezes em quantidade suficiente para nova evacuação, além de diminuir a formação dos movimentos que impulsionam as fezes.

Como o indivíduo não evacua diariamente, toma nova dose de laxativo, perpetuando o ciclo vicioso, além da necessidade de aumento gradativo da dose para obter o efeito desejado. Por isso, o uso continuado de laxativos leva ao cólon catártico, no qual existe baixo tônus da musculatura intestinal, responsável por constipação grave e de difícil tratamento. A prisão de ventre pode vir acompanhada de dores abdominais, mal-estar geral e distensão da barriga por gases. Tal quadro produz grande impacto econômico na saúde pública, tendo em vista a perda de trabalho (1,2% da população dos EUA comparece ao consultório anualmente), custo dos laxativos, além das 90 mil internações hospitalares anuais junto com exames de laboratório.

O tratamento envolve mudanças de comportamento (dieta rica em fibras, reeducação funcional e psicoterapia), o uso excepcional de determinados laxantes (mais de 60 tipos) e, principalmente, a descoberta da causa. Todavia, o mais importante é a orientação médica, com conscientização em massa da população através de programas educativos e fiscalização comercial na aquisição de laxativos.

Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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