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O sangue nos olhos

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e articulista da Agência Estado

Leandro Karnal

Minha mãe sempre enfatizou que dona Maria Schlusen, minha avó, tinha uma inclinação apaixonada pela querela. Ela foi amorosa conosco, porém, suas doces cucas de canela e maçã mal disfarçavam a vocação colérica.

Litigante, dada a “tirar” satisfações, chegava-se a insinuar que a veneranda dona Maria não alugava casas exatamente para auferir lucros, todavia para ter enfrentamentos com os muitos inquilinos. E os tinha, a mancheias…

Há pessoas, como eu e muitos dos meus estimados leitores e queridas leitoras, que não têm a plena serenidade sábia e, de quando em vez, elevam a voz e espumam sua bílis. Porém, toda vez que tenho alguma fúria por motivo forte ou fútil, sou acometido de profundo arrependimento seguido de mal-estar.

Cada explosão mostra minha infantilidade, minha vaidade, minha insegurança, meu limite e minha dificuldade em atingir o estado pacífico que filósofos e teólogos exaltam como meta de vida.

Mais do que quaisquer elevados autores que eu tenha absorvido na defesa da tranquilidade, o próprio envelhecimento colabora para diminuir descontroles. Por vezes, sou calmo porque falta energia mesmo; em outras, minha alma estoica nasce da diminuição crescente do valor da opinião alheia ou dos atos de terceiros.

A tribo de dona Maria é de outra cepa. Não são os que se irritam e depois gemem sob o peso da falta de equilíbrio. Falo dos que, genuinamente, gostam da raiva e continuam discutindo com alegria no clangor das armas levantadas ou baixadas.

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É um tipo que tem abundado nas redes sociais. Não sofrem com os enfrentamentos; buscam com denodo a briga. Evitam a conciliação. Suspiram pelo desafeto depois de o choque ter arrefecido e reacendem o rastilho de pólvora.

Ligam para retomar a briga. Quando as cinzas se depositam sobre a tormenta, enviam novas mensagens para aumentar o desentendimento. Trata-se do genuíno tipo colérico.

Estou inundado pela felicidade do bom desempenho do meu time? Não basta! Devo provocar o adversário até o limite e um pouco além, quiçá.

Recebi mensagem agressiva de adversários políticos em minhas redes sociais? Posso ignorar, apagar, bloquear ou usar dezenas de outros recursos. O colérico vibra e começa a responder e segue no bate-boca com empenho cívico.

Se o outro não responde ou demora, insiste e posta algo ainda mais agressivo. Como aguçado olfato de urubu, ele é atraído pelo cheiro podre da carne em decomposição.

A raiva é um sentimento poderoso e magnético. Foca o raivoso em algo e, naturalmente, disfarça todas as outras dores.

Não é estranho que ela faça muito sucesso hoje. Se eu odeio algo, nada mais sinto sobre meus dramas. Ter um tema que me perturba impede que eu olhe para outras questões.

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Quando eu era adolescente, tínhamos de medir nosso destempero. Existiam punições imediatas. Havia pouco espaço para gostos pessoais das crianças. No mundo dos outros adolescentes, tínhamos de medir nossos gestos. Irritar alguém maior ou um grupo poderia significar dor.

O que mudou? Um elemento central: posso insultar virtualmente, ser um corajoso atrás de um avatar, enfrentar o mundo deitado no sofá. As redes sociais retiraram a responsabilidade.

Tanto faz o seu tamanho, sua força ou suas alianças: eu sou o Zé34 com foto falsa e posso enfrentar o mundo de forma impune. É uma coragem com carapaça de canalha, escondida, protegida, submersa em fluxos intangíveis e viscosos.

Dona Maria Schlusen tinha alguns limites. Sabia quem ela poderia enfrentar. Era irritadiça, todavia não insana. Mesmo assim, recebeu revides importantes na sua existência. O navegador atual não precisa de nenhum cuidado. Basta querer atacar e expressar seu ódio. Todos são iguais ao navegar e isso anima a covardia interna.

Acho que a grande dor do raivoso virtual é que o mundo real continua existindo. Atacam o time adversário e ele continua ganhando. Insultam quem foi eleito e a pessoa continua eleita. Quase desencarnam se seu desafeto foi liberado da cadeia e a pessoa continua liberada. A coragem de sofá faz barulho, ainda que todos tenham percebido que é de uma eficácia limitada.

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Bem, a fama é uma mercadoria e o “linchamento moral” pode ser um dado importante e, quase sempre, é instrumentalizado como ação a serviço de uma ideologia. Não irei desenvolver isso, apenas o odiador real, aquele que não ganha para postar aquilo. Esse é um ser fascinante. Passa o dia odiando, bufando, babando, adjetivando e… gosta.

Seu ácido não parece corroer suas entranhas, ao contrário, alimenta-as. Como os urubus, parece estar preparado para o lixo que ingere. São feios como os abutres, porém eficazes como todo carniceiro.

Levei muito tempo para entender a dor de algumas pessoas. Hoje tenho maior compreensão. A dor pertence a ela, exclusivamente a ela, disfarçada, claro, das mais elevadas pretensões morais. Observar essas pessoas é um exercício antropológico.

Incomodar-se com elas, hoje eu sei, é um erro. Elas estão ali e sempre estarão. Representam todo o ressentimento da nossa espécie. O desafio é blindar-se contra a dor alheia. É preciso ter esperança e, certamente, alguma serenidade.

Leandro Karnal é historiador e articulista da Agência Estado

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