Buscar no Cruzeiro

Buscar

O País que eu quero

29 de Setembro de 2018 às 06:00

O País que eu quero Crédito da foto: Vanessa Tenor

Edgard Steffen

Esse viés de verdade embutido em nossas mentes dá aos mentirosos uma vantagem. Já nascemos prontos a ser enganados.

Hélio Schwartsman*

A maior rede de televisão no Brasil teve excelente ideia. Abriu espaço para que qualquer brasileiro tenha seus minutos de fama -- previstos por Andy Warhol -- e diga em cores ao vivo que Brasil ele quer. A consulta poderá orientar o vencedor das próximas eleições a governar a Pátria Amada Salve! Salve! do jeito que o povo gosta. Humildes habitantes das mais longínquas comunidades deste mundão brasileiro mostraram preocupação com o desperdício de recursos. Exibiram inúmeras obras paradas ou estapafúrdias. Saúde, segurança e educação foram as conquistas mais desejadas. O combate à corrupção -- pode ser lido como apoio à Lava Jato -- pareceu unanimidade.

O perigo é acharmos que basta combater a corrupção e tudo estará resolvido. Notório é avanço aos cofres da República em favor dos partidos ou para encher bolsos dos que tinham as chaves dos cofres. Deve ser apurado e combatido com justiça e cadeia. Mas, não basta. Os buracos estão por toda parte. Em cima, embaixo, no meio.

Que país eu quero? Onde faria o selfie?

Diante da linda estação da EFS? Serviria como tardio protesto à opção dos anos JK pelo asfalto e insensato abandono da malha ferroviária. Melhor teria sido a coexistência e aperfeiçoamento das duas.

Ou iria para a “Aranha do Vergueiro”? O esquelético monumento, hoje incorporado à paisagem urbana, traria à lembrança outros projetos bem pensados, mas abortados por falta de quem pague a conta.

Desisto. Sem selfie sem nada.

No Brasil que eu quero tudo funcionaria. Por primeiro a Democracia e a Constituição. O Estado seria mínimo. Forças Armadas com poder de fogo para desestimular vizinhos de olho em nossas riquezas. Devidamente equipadas e sediadas nas bases, quartéis e fronteiras. Educação, Saúde e Segurança seriam inegociáveis objetivos nacionais acima dos partidos. Estes reduzidos a 4 ou 5, ideologicamente embasados no que se convencionou rotular esquerda, direita, centro. Alternar-se-iam no poder, disputando eleições livres. Promessas feitas seriam obrigatoriamente cumpridas. Os três Poderes, independentes e funcionantes.

Neste utópico delírio, haveria crescimento e pleno emprego. Justiça rápida. Proibidos recursos meramente protelatórios e querelas entre vizinhos impedidas que cheguem ao Supremo. O sistema de saúde, sem filas ou sem protelações. Aposentados em confortável e merecido descanso. Crianças nas escolas e creches em tempo integral. Garantido ao cidadão o direito de concordar ou discordar, sem ser obstado pelo Estado autoritário. Garantido também o direito de ir e vir sem sofrer ações do crime organizado ou ocasional. Ampla liberdade religiosa escoimada de interesses partidários. Usada exclusivamente para os propósitos da Fé.

Cidadãos conscientes de que o macunaímico “jeitinho” de resolver problemas não resolve nada. Conscientes de que nem Deus é brasileiro nem Brás é tesoureiro que acerta tudo no final. Precisaríamos estoicismo como dos ingleses na 2ª Grande Guerra; até a família real obedeceu ao racionamento. Produtividade e disciplina dos alemães e japoneses que, com auxílio dos vencedores, pagaram o butim e reergueram os respectivos países. Consciência cívica dos suíços. Vida espartana dos escandinavos. Educação dos coreanos do Sul. Tenacidade dos chineses com democracia dos canadenses. PIB igual ou maior que o dos Estados Unidos. O País que eu quero não é o que eu tenho.

Pense no Brasil que você quer e não se deixe enganar por promessas mirabolantes irrealizáveis. Use sua arma. O voto. Não é bala de prata. Mas é sua.

(*) “Por que acreditamos em políticos?” -- FSP 23/09/2018 -- pág. A2

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço -- [email protected]