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O livro do Obama

Foi uma boa surpresa porque a sinopse no site da editora descrevia um livro centrado no primeiro mandato de Obama

Prometi, na semana passada, falar um pouco mais a respeito de “Uma terra prometida”, livro escrito por Barack Obama. Foi, como tentei enfatizar, uma surpresa boa. Quase soltei “grata surpresa”, mas aí seria muleta verbal, clichê rampeiro.

Foi uma boa surpresa porque a sinopse no site da editora descrevia um livro centrado no primeiro mandato de Obama. Aí eu olhei o número de páginas na ficha técnica. Um catatau. Essa visita superficial ao site da editora aconteceu em novembro do ano passado, logo no lançamento do livro. Deixei a coisa quieta por algumas semanas. Mergulhei fundo nos meus amados romances policiais. Isso vicia, viu?

Mas aí fui vendo um monte de gente boa elogiando o livro do Obama. Um desvio importante aqui: o lance da dica, da recomendação. Perdoe a filosofia de boteco: nossa vida é recheada de dicas, de recomendações. E isso acontece nas miudezas e nas coisas mais relevantes.

Imagine que chegou a hora de matricular o pimpolho na escola. Imagine que você queira matriculá-lo numa escola particular. Certamente você não vai abrir as páginas amarelas em busca da palavra “escola”. Certamente você não vai anotar o nome de todas as escolas. Certamente você não vai conhecer todos os estabelecimentos da cidade. Você vai, aí sim, conversar com conhecidos. Não com qualquer conhecido. Você vai escolher algumas pessoas em quem confia. A partir disso, você vai visitar algumas escolas.

Eu acho bem sério pensar na escola da criança. Então o exemplo que eu dei está na prateleira das coisas mais relevantes. Use a criatividade e encare as situações mais prosaicas. A ida a um restaurante, a uma loja, a uma padaria. Não tem fim. E se aplica, muitas vezes, nos livros que estamos lendo ou nos livros que pretendemos ler.

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Tem gente que olha torto para as recomendações de leitura. Tem gente que acha as recomendações importantes. Qual canoa escolher? Depende. É legal pra caramba passear por uma livraria aprazível e passar horas folheando os livros e se encantar com trechos arrebatadores. Mas não é sempre que a banda toca assim. Também é legal confiar no julgamento de algumas pessoas. É assim que se faz a trilha da leitura.

Eu estou dizendo aqui, sem qualquer receio, que resolvi ler o livro do Obama porque gente em quem eu confio disse que a empreitada valeria a pena. E valeu mesmo.

Obama não se limita a esmiuçar seu primeiro mandato como presidente. Ele trata dos passos que o levaram até ali, de memórias familiares, de um montão de coisas. O que se destaca, na minha tosquíssima opinião, é a habilidade de Obama na hora de acionar diferentes alavancas narrativas. Isso mesmo: alavancas narrativas. Obama, fundamentalmente, é um grande contador de histórias.

Há momentos da intimidade familiar. Há momentos de humor cáustico. Há momentos de análise da história dos EUA e de questões mundiais urgentes. Há momentos frenéticos que tratam do sistema eleitoral dos EUA. Frieza, humor, leveza, dilemas. O tom justo para cada registro. Difícil pra caramba fazer uma coisa tão ambiciosa dessas. Tolstói era craque nisso. Por favor, não estou dizendo que o Obama é o Tolstói. Por favor.

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Nessas horas sempre aparece um mané dizendo: “ah, você concorda com tudo o que o Obama fez ou pensa?”. Juro que reli as linhas anteriores em busca de algo que sugerisse que eu tenho aqui em casa um altar com uma estátua do Obama. Claro que não tem, meu! Claro que eu critico um monte de coisas que o Obama fez ou pensa. Meu filho, uma dica: se você somente ler autores com os quais concorda na íntegra, você está na roça. Ô, vidinha pobre.

Leia “Uma terra prometida”. Deixe o WhatsApp em paz um tantinho.

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