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O início do verão, que nos convida a sonhar

Artigo escrito por Paulo Sergio Bretones, professor do Departamento de Metodologia de Ensino/UFSCar.
O início do verão, que nos convida a sonhar
Crédito da foto: Pedro Negrão / Arquivo JCS (17/2/2017)

Paulo Sergio Bretones

No dia 22 de dezembro, à 1h19, começou o verão no hemisfério sul, que corresponde ao início do inverno no hemisfério norte. No chamado solstício, que acontece no dia 21 ou 22 de dezembro, no hemisfério sul ocorre o dia mais longo e a noite mais curta do ano e no hemisfério norte o dia mais curto e a noite mais longa do ano.

Contudo, este assunto que já deveria ser bem conhecido pelas pessoas e professores, na verdade não é, porque ainda persistem muitas concepções errôneas a respeito.

Uma delas é que o verão ocorre porque a Terra está mais próxima do Sol e o inverno porque está mais afastada. Outra concepção errônea é que nestes dias ou mesmo em qualquer dia, o Sol passa ao meio-dia no ponto mais alto sobre nossas cabeças. Isto também não é verdade, pois depende do local e da época para isto correr. O Sol só fica a pino em certas épocas do ano e em locais que ficam entre os trópicos. Por exemplo, para muitos países da Europa isto nunca ocorre. Sobre este tema, pode ser útil um artigo que publiquei em parceria com o prof. Paulo Bedaque, na Revista Brasileira de Ensino de Física, disponível na Internet.

Um dos maiores desafios do ensino de Astronomia ainda é a explicação das estações do ano. Elas são causadas pelo movimento da Terra em torno do Sol. A Terra gira em torno do Sol em uma órbita praticamente circular, mas o seu eixo é inclinado em relação à perpendicular ao plano de sua órbita.

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Mas o que se vê no céu e se conhece desde a antiguidade é que nestas datas de início do verão o Sol nasce o mais afastado para o sul quando visto no horizonte do nascente. Estas ocasiões são chamadas de solstícios, cuja origem da palavra vem do latim Solis (Sol) e sistere (parado). Isto se explica porque o Sol parece não variar sua posição de nascer e ocaso no horizonte de um dia para outro nestas datas.

Em sala de aula, podem ser usados modelos didáticos com bolas de isopor representando a Terra girando ao redor do Sol sobre uma mesa e um espeto de churrasco como eixo de rotação da Terra que não está de pé, mas inclinado e apontado para a mesma direção. Também pode ser usado um globo de vidro com líquido colorido para representar o horizonte e marcações por fora para representar o movimento do Sol no céu, um famoso método proposto pelo prof. Rodolpho Caniato. Para os alunos dos anos iniciais, no chamado Fundamental 1, pode-se incentivá-los a observarem nesta data a posição do nascer e do pôr do Sol. Mesmo vivendo em grandes cidades, pode-se propor aos alunos fotografarem o nascer e o pôr do Sol, tão fácil hoje em dia com as câmeras dos celulares. Além de ser um momento com uma imagem belíssima, é uma oportunidade de vivenciarem um fenômeno astronômico acessível e depois se trabalhar em aula as explicações.

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As datas e horários do início das estações são astronômicos. O início do verão no hemisfério sul ou do inverno para o hemisfério norte é definido pelo maior afastamento do Sol com relação ao equador celeste. Mas as condições meteorológicas não coincidem exatamente com a data e hora do início de cada estação. De modo geral, no hemisfério sul temos dias mais quentes e no hemisfério norte dias mais frios. Para o nosso país, no clima subtropical, por exemplo, aqui no sudeste e em grande parte do Brasil, estamos numa época de chuva, mas em certas outras regiões persiste a seca.

Na data do início do verão no hemisfério sul e inverno no hemisfério norte, o Sol nasce o mais deslocado possível para o Sul. Em outras palavras, pode-se notar, para quem está de frente para o Leste que nestes dias o Sol está nascendo o mais para a direita possível. Da mesma forma, para quem está de frente para o Oeste, observa nestes dias o Sol se pondo o mais para a esquerda possível.

O céu não é dos melhores nesta época em regiões onde chove muito. Mas se, após uma chuva, tivermos tempo aberto, a atmosfera limpa sem poeira e poluição deve permitir a observação de um céu maravilhoso. Já no inicio da noite a constelação do Órion é visível com as populares Três Marias lá pelos lados do leste. Vemos também à direita das Três Marias, a estrela Sírius, a mais brilhante do céu e à esquerda, lá pelos lados no norte o aglomerado aberto das Plêiades. A Lua crescente também estará visível no início da noite.

É difícil dizer se o céu do verão é o mais bonito, mas ele sempre nos convida a sonhar.

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Como escreveu Shakespeare em “Sonho de uma noite de verão”:

“Há quem diga que todas as noites são de sonhos.

Mas há também quem diga, nem todas, só as de verão.

No fundo, isto não tem muita importância.

O que interessa mesmo não são as noites em si…

São os sonhos… sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.”

Um tempo bom para sonhar com o Ano Novo e renovar nossas esperanças como diria aquela música do Roupa Nova, “Canção de verão”:

É verão
Bom sinal
Já é tempo
De abrir o coração
E sonhar

Paulo Sergio Bretones é professor do Departamento de Metodologia de Ensino/UFSCar.

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