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O fogo e o vírus

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
O fogo e o vírus
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Assim como onde há fumaça há fogo,
onde muitos se juntam há gente com vírus

A minissérie franco-belga “Chamas do Destino” (Bazar de la Charité — Netflix) focaliza tragédia ocorrida em Paris em 04/05/1897. Direção segura, guarda-roupa impecável, belas imagens costuram histórias de três mulheres (personagens fictícias) num contexto social dominado pelos homens e pelo poder do dinheiro. Vale a pena assistir. A história real: Num galpão de 80 m x 13 m, 1.200 pessoas da nobreza e da alta burguesia europeia amontoavam-se num bazar beneficente. Entre as atrações, o cinematógrafo recém-inventado pelos irmãos Lumière. Por 50 centavos podia-se assistir três filmes — a “assustadora” chegada de um trem, entre eles. A fonte de luz usava éter; o incêndio começou quando o operador manejava a volátil substância. Em 15 minutos consumiu tudo. Morreram carbonizadas ou pisoteadas 123 mulheres e apenas seis homens. Havia somente uma porta de acesso ao evento. Homens mais rápidos e fortes esqueceram o decantado cavalheirismo e correram para a saída puxando e pisoteando as damas.

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Em 25 de março de 1911 foi a vez de New York viver pesadelo causado pelo fogo. Morreram 129 mulheres e 26 homens. Pelas labaredas ou por despencarem ao solo numa tresloucada tentativa de fugir às labaredas. Desta vez, as maiores vítimas foram trabalhadoras adolescentes pobres, imigrantes que mal falavam o inglês. Aconteceu numa fábrica de roupas femininas. A Triângulo funcionava nos três últimos andares de prédio com dez pavimentos. A escada de incêndio, precária e mal construída, não serviu como rota de fuga. Das duas escadas internas, uma estava bloqueada, para impedir que pequenos furtos fossem praticados. Foi um dos piores momentos da história do trabalhismo americano. Somente após a tragédia ocorreram mudanças na legislação, principalmente na área da segurança.

Em 18 de janeiro de 1945, tragédia em Indaiatuba. O município contava com 10 mil habitantes, 75% na zona rural. As 2.500 almas urbanas distribuíam-se pelas ruas em torno da estação, matriz e praças. Ricos, pobres, remediados e até moradores de rua se conheciam pelo nome. Naquela tarde transportadores haviam deixado tambor com 20 litros de tinner exposto ao sol. O solvente era usado na composição de um verniz que dava acabamento aos cabos de guarda-chuva. Athos, um dos irmãos sócios na empresa, resolveu recolher o solvente para colocá-lo à sombra. Ao fazê-lo ocorreu explosão. Labaredas encheram a secção de acabamento. Uma jovem de 16 anos e o patrão morreram logo após o acidente. Outras cinco operárias sucumbiram nos dias subsequentes. Assustadas pela explosão, haviam corrido para a saída única e foram de encontro às chamas. A pequena cidade emudeceu. Até o carnaval foi cancelado.

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Escrevo na quarta-feira de cinzas dum carnaval que não houve. Pelo menos para aqueles que tiveram juízo e mantiveram o distanciamento social. Cinzas são o que resta de algo consumido pelo fogo. Talvez por isso me veio à mente analogia entre os três incêndios e a pandemia. O coronavírus, a fagulha incendiária. A insensatez humana, volátil comburente. Embora tenham preferência por idosos e portadores de comorbidades, as chamas da Covi-19 não respeitam idade, sexo ou classe social. Para dominar a pandemia, vacinar é a única saída. Comportamentos absurdos de quem deveria dar exemplo, brigas políticas, subavaliação dos riscos e tardança na assinatura de contratos para aquisição de imunizantes estreitaram demais a única saída. A escassez de vacinas é triste realidade. Os que se safaram do bazar passando sobre as mulheres, se assemelham aos “fura-filas” da campanha. E os tresloucados que se jogaram no espaço, talvez se comparem aos que se aglomeram sem máscara em pancadões e festas escondidas das autoridades.

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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