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O fardo do homem branco e o roubo da História

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Leandro Karnal

Na Antiga Grécia, cunhou-se o termo bárbaro. Servia para um grego descrever alguém que não partilhava de sua cultura e seus valores. Aquele que não falava a língua, balbuciava, soltava sons estranhos que lembravam um “bar-bar-bar”, etimologia do termo. Não era algo necessariamente pejorativo, mas, ao fazerem uso da palavra, os velhos helenos se punham como o centro do mundo. Seu universo era o próprio umbigo. Mascaravam, com isso, o quanto tomaram dos “bárbaros”: do formato das colunas de seus templos ao papiro de seus textos; da iconografia de seus vasos ao fato de terem sido mercenários em exércitos persas e assírios em várias ocasiões, aprendendo técnicas bélicas. É interessante pensar a Grécia como uma problemática e periférica fronteira ocidental do imenso império persa e não como o centro do mundo.

Os romanos, povos barbáricos do ponto de vista original, tomaram o termo para si e o aplicaram a seu próprio mundo. Os outros eram gauleses, germanos, cartagineses. Ao mesmo tempo que desenvolveram o orgulho de se sentirem o centro do mundo, construíram um império que era uma imensa rede multicultural, de reis e senhores de diversas origens pleiteando alianças ou provocando embates. Uma das maiores heranças romanas é a adaptação de uma vertente minoritária do judaísmo, uma religião barbárica, no cristianismo.

A Europa medieval assistiu a um lento espalhar da fé católica, em diversas leituras religiosas, pelos seus mais distantes confins. No processo de catequese, a crença que se tornou a maior do mundo, intolerante com outros deuses, se apropriou de festivais de solstícios, árvores de Natal, coelhos e ovos da Páscoa. Tornou-se pura justamente por ser uma esponja.

Quando a Europa rompeu a bolha de seu isolamento por meio das navegações, todos os povos americanos, africanos e asiáticos encontrados, mesmo que mais ricos e complexos do que os europeus, foram descritos como bárbaros, ou ainda pior, selvagens. Os astecas tinham cidades maiores do que as espanholas. Os incas tinham estradas continentais. Os chineses eram a principal economia do globo.

Reinos africanos tinham acesso a ouro e sal, escassos na Europa. Milhares de europeus morreram tentando pôr a mão em tais riquezas. Milhões pereceram em decorrência de doenças espalhadas pelos brancos e pela escravidão moderna.

Ainda assim, o mundo todo era menos do que os civilizados europeus. A tecnologia e o know-how das navegações eram, em grande parte, ciências árabes e judaicas, dos povos “infiéis”. Para não morrerem de escorbuto e compreenderem correntes náuticas no Índico, se valeram de cítricos e mestres africanos e indianos, povos “menores”.

No 19, a Revolução Industrial, pela primeira vez na História, desbancou a China de seu trono de rainha do mundo e pôs a Inglaterra no lugar. O imperialismo e a ciência moderna navegaram juntos. Conhecimentos de plantas medicinais e outros saberes, por séculos explorados por povos em todo o globo, agora eram estudados e publicados como descobertas europeias. Quando os Estados Unidos lideraram guerras pela independência das Filipinas e de Cuba, um poeta inglês, nascido numa colônia, a Índia, encantado com o desprendimento e engenhosidade da “raça branca” diante dos bárbaros povos morenos e negros, escreveu um laudatório poema sobre isso: o fardo do homem branco (The white man’s burden). Rudyard Kipling descrevia como os brancos, de forma abnegada, davam suas vidas para o progresso dos “povos atrasados”. Os povos não europeus “serviriam” aos cativos como uma missão civilizadora. Os africanos, asiáticos e não brancos em geral, eram indolentes, ou seja, preguiçosos e deveriam ser ensinados com insistência, repetição e visão missionária. Kipling é um bom poeta e um homem terrivelmente racista.

O sentimento de superioridade de brancos marcou o século 19 de diversas formas. Foi o auge da escravidão de negros africanos, aprisionados e explorados de forma industrial. No mundo contemporâneo, o mesmo discurso produziu a eugenia, o higienismo, o holocausto. Milhões morreram para que essa superioridade se afirmasse. A civilização e a barbárie clássicas foram redefinidas com extrema violência, sempre, claro, com as mais cristalinas e piedosas intenções. Afinal, em decorrência perversa nunca enunciada por Darwin, era uma mostra de que a espécie mais forte se imporia à mais fraca.

Esforcei-me para ampliar um raciocínio de Jack Goody, no livro “O roubo da História” (Contexto, 2008). O falecido antropólogo britânico narra como os europeus criaram sua própria versão da História do mundo e deles mesmos, o eurocentrismo. Eles seriam a mola propulsora do mundo, com seus valores como democracia, liberdade, igualdade de direitos, cristianismo, universidades, individualismo e a idealização do amor romântico. Goody demonstra como essas invenções são, na realidade, apropriações de valores orientais. Claro, tentando desentortar o prumo europocêntrico, o autor decide que tudo veio de fora da Europa. Isso não é verdade, porém já é o momento de descobrirmos um mundo fora das narrativas europeias do século 19, já que nem mesmo o Velho Mundo acredita mais na sua superioridade mundial. É preciso ter esperança.

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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