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O ensino de literatura, uma reflexão

A falta de familiaridade com textos clássicos resulta num vocabulário escasso que, lamentavelmente, reflete-se, também, na produção das redações

“Tudo o que não é literatura me aborrece”. Esse pensamento, atribuído ao escritor Franz Kafka, que abre este artigo, é um pretexto para uma provocação. Afinal, num país em que a leitura sempre foi vista como uma imposição das escolas ou algo supérfluo, o convívio dos jovens com os livros se torna algo cada vez mais raro. Situação que se evidencia, com maior ênfase, nestes tempos, em que a tecnologia se volta para a indústria do entretenimento e o lúdico se impõe. Com isso, autores de textos consistentes, lamentavelmente, tornaram-se sinônimo de chatice.

Desse modo, é possível afirmar que o ensino de literatura, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares, enfrenta algumas resistências, por parte dos estudantes, principalmente do ensino médio, pois a maioria não entende a necessidade e a dimensão de tal aprendizado. Inclusive, para muitos, a disciplina atende a um único propósito: passar no vestibular.

Nesse contexto, cada vez mais, os alunos recorrem aos resumos literários, disponibilizados na internet. Não digo que isso seja de todo ruim, pois é uma ferramenta a mais; todavia, não deveria ser a única forma de contato com os livros. Ocorre que boa parte do alunado quer o mais fácil, aquilo que já está pronto ou já foi pensado. Assim, interagem, muito superficialmente (como mera obrigação), com as obras que integram as listas dos principais vestibulares do país.

Tal pragmatismo gera um hiato na percepção do legado que alguns escritores, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, deixaram para formação cultural de nosso país. Assim, a maioria não faz uma reflexão sobre a grandeza de tais textos. Algo que só uma leitura minuciosa nos possibilita, uma vez que tais produções reivindicam maior atenção dos leitores, pois não foram concebidas para atender aos ditames do mercado editorial, que se rende aos modismos, cujos best-sellers contam com maior apelo comercial e lucratividade.

Por outro lado, a escola também tem pecado (e muito), pois a convivência salutar com Drummond, Cecília Meireles, Murilo Mendes ou Manuel Bandeira se perde, diante de estratégias equivocadas que certos professores adotam frente à disciplina. Para alguns docentes, a “decoreba” ainda prevalece em detrimento ao prazer da descoberta. Tal prática não só agrava a situação do ensino literário, no país, como afugenta os discentes das nossas letras.

Além disso, a falta de familiaridade com textos clássicos resulta num vocabulário escasso que, lamentavelmente, reflete-se, também, na produção das redações. Afinal, muitos ignoram o fato de que, dependendo do tema proposto nos vestibulares (ou no Enem), se o candidato tiver uma boa bagagem de leitura, poderá lançar mão de referências literárias para sustentar sua tese.

Talvez, isso seja reflexo de uma dura realidade: boa parte da sociedade só consegue perceber a literatura como algo voltado mais para o lazer do que para o registro autêntico das emoções humanas, no dizer de Maurice Branchot. Assim, a população nem sequer nota a importância da dimensão histórica de determinada obra e a universidade de abrangência de certos temas. Ademais, muitos formandos do ensino médio não entendem o porquê dos vestibulares indicarem listas de livros, algo que, para eles, torna-se uma “tortura”.

Destarte, é preciso que os educadores despertem para essa irrefutável verdade, a fim de alterar tal panorama. Além disso, é importante que o professor busque novos recursos, com toda criatividade possível, para tornar a matéria lúdica e interessante. Os alunos agradecem. No próximo encontro, abordarei alguns métodos. Até lá.

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, e apresenta com Alessandra Santos o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM 92,3 MHz, sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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