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O caipira e o vírus

Artigo escrito por Daniele de Oliveira Garcia, doutoranda em Educação, mestra em Comunicação e Cultura, professora na Uniso e caipira de Tatuí

Daniele de Oliveira Garcia

O dia começa cedo na fazenda: todas as rotinas são guiadas pelo nascer do sol, que como regente, conduz as nuances melódicas do dia. Tirar leite da vaca, capinar, preparar o almoço, deitar-se para a “sesta”. Não há necessidade de correr. Lá, na fazenda, o tempo caminha a seu ritmo.

À noite, é hora de acender as luzes. Do lado de fora da casa, moscas e sapos se agrupam, seduzidos pela beleza da luz elétrica. Sempre nos dias quentes. E, às vezes, também durante à noite, todo mundo da casa se junta na sala para assistir às notícias na TV. Quando há futebol, as ondas do rádio levam emoções à roça. Ninguém, no entanto, fica calado: o sentar-se na sala é a oportunidade para partilhar as aventuras e dissabores do dia.

Internet? Celular? Computador… Demoraram a chegar. E, ao chegar, encontraram utilidades muito práticas: matar a saudade dos familiares distantes, que migraram para a cidade, observar uma receita, olhar a hora…

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Em um destes dias, chega à roça a notícia de um vírus, que invadiu a cidade. “Dizem que ninguém pode sair de casa, nem para trabalhar”. Os estudantes estão em aulas “pelo computador” e muitos trabalhadores envolvidos no trabalho em casa. “Será que o vírus chega aqui?”, “Dizem que tem matado muita gente”, questiona-se aflito o caipira, entre uma atividade e outra.

O artista tatuiano Jaime Pinheiro tem alimentado o seu Instagram (@jaimepinheiro58) com fotos divertidas de “Nho Lau”, personagem criado por ele bem antes da quarentena, para um Trabalho de Conclusão apresentado em 2001 no curso de Educação Artística/Artes Plásticas da ASSETA, Tatuí. Segundo Jaime, “Depois disso, o Nho Lau, participou de algumas aulas como exemplo de confecção de bonecos, mas nunca ‘exerceu‘ o personagem. Só agora começou a atuar”.

Em uma das fotos, o personagem tenta “desinfetar” um celular: “Isolamento sem comunicação/ Então ‘apareceu um aviso de Vírus‘???/ Pelo zóião, tava bulindo no celular e abriu página que não devia, né?/ Não é assim que mata vírus que tem na internet, /Nhô Inxerido…/Ficou quietinho é prejuízo certo…” escreve Jaime na legenda da postagem .

O jogo de palavras, amparado nos significados de “vírus” traz à tona questionamentos que vão além do trocadilho e que acabam por externar o que Antônio Cândido, em seu “Os parceiros do Rio Bonito”, chama de bens incompreensíveis “a participação na beleza, a euforia da recreação, o prazer dos supérfluos”; ou seja, as condições que permitem tornar uma pessoa “mais ou menos plena” diante de outra e dentro dos padrões diversos de vida.

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Ora, se não é possível compreender o vírus, há que se acreditar nas imagens geradas a partir dele. E, neste contexto, o vírus, de certa forma, adquire caráter folclórico, tal qual o “Saci”, a “Mãe d’água”, figuras que não aparecem a todos, mas, quando “aparecem”, causam grandes impactos. Esta presença “fantasiosa” do vírus pelo caipira, é diferente, no entanto, das visões que, diante das evidências, questionam a sua existência real… Para o caipira o vírus existe!

E, na cidade? As TVs estão ligadas, os celulares conectados o dia todo. Mesmo em casa, o ritmo frenético de produção permanece, gerando impactos e insatisfações. As notícias retratam um vírus real…

A nós, falta a fantasia do caipira, a tranquilidade do “Nho Lau”… Mas nos sobra a esperança de que é, apenas, um momento… e vai passar!.

Daniele de Oliveira Garcia, doutoranda em Educação, mestra em Comunicação e Cultura, professora na Uniso e caipira de Tatuí. (daniele.oliveira@prof.uniso.br)

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