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No corredor do supermercado

E aí surge um vácuo na conversa. Aquele que sempre vem com uma sensação horrível de “o que dizer” e como terminar um papo desconfortável

Neusa Gatto

E, de repente, o vê. Entrando com seu carrinho de compras no mesmo corredor, ele, o ex. Distraído ele olha alguns vinhos. Ela entra em pânico. Meu Deus, preciso sair daqui, agora. Mas, tarde demais. Ele levanta os olhos e acena. Agora não dá mais. Justo hoje que ela está com o cabelo daquele jeito. Jeans horrível. Camiseta largona que nem tirou depois que fez a faxina da casa naquele dia. Completamente sem graça.

Ele, devagar vai chegando até ela. A cabeça também a mil. Tanto lugar pra encontrar a dita-cuja e tinha que ser justamente hoje quando tá com aquelas havaianas horríveis. Bermudão surrado e aquela camiseta furada no colarinho. E ainda por cima cor de rosa. Aquela que ela odiava quando estavam juntos.

Oi, você por aqui? diz ele. Oi, ela responde sem graça.

Mundinho pequeno esse né? A gente se encontrar nesse supermercado. Ele — é verdade, e olha que nem venho aqui sempre, coincidência, né? Lá dentro ele remói: bem que tinha pensado em ir naquela mercearia perto de casa. O sexto sentido tinha dado um toque…

Pois é, pra gente ver… e aí, como vão as coisas? sai dela uma pergunta relutante.

Ah, tudo em ordem, responde ele, com um sorriso forçado. Tudo caminhando muito bem, às mil maravilhas. Tou tocando novos projetos lá na empresa. Ideias a todo vapor. Mal sabe ela que ele tá numa fase de vazio total. Com reclamação da chefia de sua falta de objetividade. E, com você? emenda ele. Eu também tou numa fase ótima. Acredita? Fui promovida, cuido das principais contas da empresa agora. Tudo melhorando bastante. Mal sabe ele que o emprego dela continua horrível. Com as mesmas tarefas sem graça. Chefia incompetente. E o que é pior, sem a menor possibilidade de qualquer promoção.

Que bom, fico contente por você, fala ele sem nenhuma convicção. Que droga, pensa, melhorou no trabalho. Deve estar com namorado novo. Saindo às pampas. Se divertindo. Esqueceu de mim.

Então, olhando os vinhos? Já escolheu algum? pergunta ela. Ah, sim, vou dar uma festa lá em casa daqui a pouco e resolvi fazer tudo na base de queijos e vinhos. Só que seu carrinho de compras conta outra história. Nele, papel higiênico, sopa instantânea, macarrão, uns enlatados. — Festinha básica, sabe como é? Só petit comité.

Petit comité? reflete ela. Com certeza, um belo encontro com sua possível nova “amiga íntima” que deveria ter um significado bem importante pra ele bancar queijos e vinhos. Ficou refinado o moço. Na nossa época era pizza e cerveja — todo fim de semana! Deve estar apaixonado!

Eu também saí pra comprar uns vinhos porque hoje à noite vou reunir um pessoal lá em casa. Comemorar minha promoção, né? falou ela, sem graça olhando pro seu carrinho de compras onde uma caixa de sabão em pó, amaciante, shampoo e outras miudezas de casa denunciavam seu propósito ali no mercado.

Imediatamente ela começou a retirar várias garrafas de vinho da prateleira sem saber direito o que pegava. Foi colocando, uma, duas, três, meia dúzia. Deus do céu, pensou ela. Essa conta vai ficar uma fortuna.

Estou vendo que seu bom gosto para vinhos continua bom, falou ele, olhando para o que ela pegava afoitamente. O novo namorado deve ser mesmo muito especial, refletiu ele, observando a qualidade dos vinhos que levava.

Enquanto falava, ele também ia se abastecendo de várias garrafas de vinho branco. E isso, ela notou. Humm, vinho branco, pensou ela, a companhia que ele tem hoje é feminina, sem dúvida.

E, então? Parece que a felicidade está sendo generosa pra nós dois, não é? complementou ele. Nossa separação tá fazendo bem pra gente, riu. Sem dúvida, sem dúvida, a vida continua, não é? E muitas vezes pra melhor, respondeu ela.

E aí surge um vácuo na conversa. Aquele que sempre vem com uma sensação horrível de “o que dizer” e como terminar um papo desconfortável. No ar, apenas pensamentos indizíveis.

Ele: nossa, continua bonita a danada. Andou pegando sol. Deixou o cabelo crescer. Tá com jeito de estar feliz e até com essa roupinha do dia a dia ainda tá atraente. Deve estar com um novo amor e, puxa, não me lembro de achá-la tão bonita antes.

Ela, olhando de soslaio: ele emagreceu, tá mais definido. Deve estar malhando. E, ah, suas pernas, parecem mais fortes. Até com essa triste sandalhinha havaiana tá com ar mais sexy, mais fashion. Que raiva da dita-cuja que hoje à noite vai degustar o vinho branco e… ele….

Bom, disse ela, vou indo. Ele, ah, também já tou de saída. Ainda tenho algumas coisas para ajeitar no apartamento antes que a galera chegue.

Sim, galera, vai nessa que acredito. Galera de uma só. Talvez uma loirona ou uma morena estonteante. E acrescentou: também tenho que pegar mais algumas coisas pra levar. Umas frutas, talvez…

Sim, claro que ela vai levar frutas, matutou ele. Uvas, morangos… para dar um tom mais erótico ao encontro com o novo affair. Aposto que ela também vai comprar velas. Sempre gostou de velas e incensos na época em que transavam. Boas lembranças.

Então, foi bom encontrar você de novo. Você me parece muito bem. Fico contente. Enquanto as palavras saiam de sua boca, a cabeça dela já apontava as críticas. Mas, que droga, pra que falar que ele parece bem? Entreguei que ele não só parece, mas que está bem. E bem melhor que eu que ainda lembro dele todos os dias e me sinto horrível hoje, justo hoje….

O mesmo digo pra você, finalizou ele. Você tá ótima e, pelo jeito, felicidade deixa as pessoas mais bonitas. Pronto! Que babaquice tou dizendo? refletiu ele. Pra que reconhecer que ela tá bonita e parecendo bem mais feliz longe de mim? Eu que ainda sinto sua falta e ainda penso nela mais do que deveria……

Bom, nos vemos, disseram os dois quase que ao mesmo tempo.

Ela virou seu carrinho, ele o dele e foram saindo.

Antes de ir embora, ele ainda pegou uma pizza e várias cervejas.

Ela, longe dele, catou algumas comidas congeladas e, disfarçadamente esperou que ele passasse pelo caixa para depois fechar também sua conta.

Ao chegar em casa, ela ouviu a mãe reclamar da sua demora no supermercado. Ela não disse nada. Pacientemente guardou as compras. Escondeu os vinhos pra mãe não estrilar pelo gasto, ligou o forno, enfiou lá uma das comidas congeladas e foi colocar umas roupas na máquina de lavar.

Ele, em seu apartamento, tirou a camiseta cor de rosa, jogou longe as sandálias havaianas, botou os vinhos num canto do armário da cozinha, colocou a pizza no micro-ondas, abriu uma cerveja e ligou a tv pra ver o jogo daquela noite.

Neusa Gatto é jornalista, produtora de tv e conteúdo.

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