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Música no cinema

Artigo escrito por Nildo Benedetti

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

A trilha sonora é o conjunto de sons de um filme. Inclui ruídos de vários tipos, efeitos de som e mesmo diálogos. Além desses elementos, inclui a trilha musical.

Quem se propõe a escrever sobre música no cinema depara com grande número de textos, com diversos pontos de vista.

Neste artigo, escolhi resumir as teorias do filósofo, sociólogo e musicólogo Theodor Adorno e do compositor Hans Eisler, ambos alemães, expostas no livro “El cine y la Musica”.

Ronel Alberti da Rosa sintetizou os conceitos expressos em “El cine y la Musica” no livro “Música e mitologia do Cinema: na trilha de Adorno e Eisler”.

“El cine y la Musica” começa com o capítulo “Prejuízos e maus costumes”, em que os autores listam nove características condenáveis na música de filmes. Essas características persistem até hoje, embora o livro tenha sido escrito em 1944. Eis algumas:

a. O uso equivocado de motivos condutores (que Wagner chamou de Leitmotiv), equívoco que consiste em caracterizar personagens, sentimentos e objetos do filme com trechos musicais de fácil assimilação.

Mas o emprego do motivo condutor em Wagner é totalmente diferente: a maior parte é de poucas notas e se presta a projetar, em nível metafísico, não só dos acontecimentos vistos em cena na ópera, mas também do que não está em cena (intenções ocultas conscientes ou inconscientes, determinações do destino, referências a personagens que só aparecerão mais tarde etc.);

b. A exigência de que as músicas sejam cantáveis e fáceis de memorizar;

c. O conceito de que música deve ilustrar perfeitamente as imagens, dando ao espectador pistas emocionais, reproduzindo clichês que são associados com os estados de ânimo (tristeza, paixão etc.)

d. O emprego de músicas típicas para acompanhar cenas de locais exóticos;

e. O emprego de músicas de estoque, isto é, músicas já compostas anteriormente para se encaixarem no filme. O livro “Música para filmes”, de F. Rawlings, traz exemplos curiosos de sentimentos que podem ser expressos por meio de músicas, partindo do pressuposto disparatado de que determinado trecho musical provoque o mesmo sentimento em todos os espectadores de um filme.

Por exemplo, “Trágico, pungente” seria adequadamente evidenciado com obras como o prelúdio da ópera “Tristão e Isolda”, de Wagner ou certo trecho do balé “Silvia”, de Delibes.

Mas, como deveria ser a boa música de filmes segundo os autores de “El cine y la Musica”?

Deve ser abolido o vínculo afirmativo entre filme e melodia. Utilizar a música para comentar imagens e diálogos é dizer que imagens e diálogos não são eficientes o bastante.

A trilha sonora não é feita para confirmar, mas para interrogar sobre as múltiplas interpretações que imagem e diálogos possibilitam.

Ela deve desligar o espectador da ilusão de realidade e fazer que o filme seja objeto de reflexão sobre aspectos da trama, ou seja, deve levar o espectador a uma tomada de posição sobre os acontecimentos narrados.

Muitos dos filmes já exibidos no Cine Reflexão têm trilha musical ou sonora muito criativas, utilizadas com propósitos variados: forma de ironia, modo de caracterizar um acontecimento situado no futuro, no presente ou no passado, mas que é desconhecido dos personagens; forma de caracterizar o anacronismo histórico ou sociológico de determinada situação vivida no presente; modo de estabelecer ligações entre crenças ou sentimentos aparentemente conflitantes — amor, ódio, religião, erotismo, nacionalismo etc.; e muitos outros.

“Poesia”, de Lee Chang-Dong, não tem música específica para comentar a trama, porque ela poderia introduzir sentimentos estranhos à enfática emoção da poesia que dá nome ao filme.

O mesmo sucede com “Culpa”, exibido sexta-feira passada na Fundec, em que todas as fortes emoções em jogo ficam por conta das expressões faciais de um único ator.

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