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Motoboys e acidentes de trânsito

Com o aumento serviços de entrega de mercadorias por motoboys, crescem também os acidentes com motociclistas
Crédito da foto: Divulgação

Mário Cândido de Oliveira Gomes

Nos últimos anos têm aumentado entre nós os serviços de entrega de mercadorias por motoboys, tendo em vista a rapidez e agilidade na entrega dos produtos. A tendência é aumentar cada vez mais o crescimento destes profissionais nas vias públicas das cidades. Em decorrência, também têm crescido os acidentes envolvendo pedestres, motociclistas e ciclistas. Mas as principais vítimas de trânsito são os motociclistas.

Com efeito, um estudo realizado em Londrina (PR) mostra que os motoboys representam 44% das vítimas de acidentes de trânsito. Aliás, entre 1997 e 2000, os motociclistas foram mais de 40% das pessoas atendidas nas emergências médicas das grandes cidades. A possível causa deste aumento de acidentes e mortes decorre da crescente utilização da motocicleta no mercado formal e informal de trabalho, especialmente em serviços de tele-entrega de mercadorias ou transporte de passageiros (mototáxis). Ainda, pela maior exposição desses profissionais nas vias públicas, com realização de manobras arriscadas no trânsito e alta velocidade no exercício das funções.

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A profissão é considerada de altíssimo nível de periculosidade, em virtude das constantes exigências inerentes a seu exercício profissional, como o cumprimento de metas em horários estabelecidos e ganho por produtividade. Os motoboys apresentam o seguinte perfil: a média de idade é de 28 anos, mas a maior parte (43%) tem entre 18 e 24 anos e cerca de dois terços têm idade inferior a 29 anos. O tempo de experiência como condutor de moto é de 5 a 9 anos, sendo que 75% atuam como profissionais acima de 2 anos. A maioria (68%) trabalha em apenas um tipo de empresa, com predomínio de restaurantes (48%), farmácias e drogarias (26,8%) e por empresas que terceirizam entregas (23,9%). Em 65% dos casos, a remuneração está relacionada à quantidade de entregas, sendo que a maioria recebe entre 1,33 a 2,67 salários mínimos/mês. Ainda, 36% alternam turnos de trabalho e 42% trabalham mais de dez horas/dia. Na condução das motos somente 24% usam celulares ou rádio comunicador, sendo que 55% relatam altas velocidades (acima de 80km/h) em avenidas e 30% em ruas. Tal prática é seguida por 80% dos motoboys em estradas e vias expressas. Tendo em vista a forma de dirigir, o cansaço e o desrespeito frequente às normas de trânsito, a grande maioria já sofreu algum tipo de acidente durante o exercício profissional, sendo 23% considerados graves, com internação hospitalar em 19%. Em relação ao tipo de acidente: 65% por colisão com outro veículo e 22% por quedas sem colisão.

A alta incidência de acidentes mostra a necessidade de regulamentação da profissão, com destaque para as más e longas jornadas diárias de trabalho. Na tentativa de incrementar o rendimento mensal, os motoboys adotam comportamentos nem sempre seguros no trânsito, aumentando o risco de acidentes e, o que é lamentável, encontrando a morte numa fase jovem da vida.

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Para melhorar tal situação, é fundamental que o Estado e a sociedade valorizem esse capital humano, repensando o papel desempenhado por essa categoria. Também devem ser adotadas medidas de proteção desses trabalhadores, através de estratégias e políticas específicas para a redução de acidentes. Em São Paulo foi criada uma via exclusiva para o uso dos motoboys, visando disciplinar o trânsito e evitar os terríveis choques entre veículos tão desiguais. A verdade é que na batalha do trânsito, como sempre, quem perde é o lado mais fraco, no confronto entre os veículos que congestionam as vias públicas. A conscientização é fundamental para a queda do número de acidentes e a diminuição da perda de vidas, ceifadas de forma tão desumana.

Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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