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Medo de Bicho

Marcão, meu amigo da galera do tênis, arrepia-se todo só de falar em baratas

Conheço muita gente que tem medo de bicho.

Clarinha de cachorro: foi mordida por um fofinho Chow Chow. Matheus de galinha: lembra quando tinha uns cinco anos estava balançando na rede com sua irmã brincando de cabaninha quando tio Walter jogou uma galinha dentro da rede, que se debateu muito até conseguir pular fora. Matheus caiu da rede. Detalhe, a irmã de Matheus (um ano mais nova) diz não se lembrar da história, mas também não é chegada em galináceos, periquitos, cacatuas aliás, detesta frango assado. Minha esposa Ana morre de medo de lagartixas, e é impressionante, pois se há alguma por perto, enxerga antes de todos a mais dissimulada branquela. Ana me contou que quando criança seu irmão colocou uma lagartixa debaixo do cobertor, e diz lembrar-se, apavoradamente, como era gelada.

A lista pode ser interminável.

Mas faltaram as hors concours baratas.

Marcão, meu amigo da galera do tênis, arrepia-se todo só de falar em baratas. Dias desses entre uma partida e outra, ele próprio contou sua história com baratas. A conversa começou não propriamente sobre baratas, mas sobre medo. Tênis é quase um xadrez. É um jogo onde a cabeça conta tanto quanto a técnica e o físico, e Marcão havia acabado de perder um jogo quase impossível de perder. Ganhava de cinco a um, saque na mão, quarenta a zero, mas perdeu. Para os não adeptos a estranha contagem do tênis, equivaleria dizer no futebol estar ganhando de dois a zero aos quarenta e três do segundo tempo, deixar o adversário empatar em dois minutos, e na última da jogada dos acréscimos sofrer o gol da derrota. Marcão tinha essa coisa de ir bem até um ponto da partida e depois deixar escapar a vitória. A explicação era o medo de perder, e no tênis o medo interfere a cada movimento. Talvez por estar decepcionado com a derrota, Marcão acabou falando de outros medos, e assim nos contou a seguinte história:

Morador em sobrado num condomínio, Marcão à noite estava entretido fazendo lanche na cozinha quando…, quando um vulto passou por ele. Teve uma única certeza. Seu coração acelerou. O filho Marquinho entrou na cozinha, encontrou o pai paralisado e o pão esfumaçado empretecendo no forninho. Marcão silabou para o filho:

Cha-ma a se-gu-ran-ça…ago-ra!

Marquinho não entendeu o que estava acontecendo, mas como um tiziu voou ao telefone e desesperado deu o alarme.

Recém-contratada a empresa de segurança do condomínio queria mostrar serviço: baixou com a viatura e duas motos. Ao todo quatro destemidos seguranças foram diretos à cozinha que Marquinho indicava meio apavorado. Cozinha vazia. Marcão havia sumido.

O chefe da segurança, um sujeito de ombros largos e olhar esperto quis saber qual o “QRU no QTH” (traduzindo: qual o problema na casa)

Marquinho sem jeito nada sabia. Foi seu pai que mandou chamar a segurança.

Onde está teu pai?

Acho que ele tá lá em cima.

Chama teu pai! determinou o chefe da segurança.

Marquinho subiu, e desceu sem o pai. Os seguranças acharam que era alguma brincadeira do menino. Quando de repente o vulto reapareceu: uma sombra enorme passeou pela parede de azulejo branco. Os seguranças procuraram de onde vinha a sombra, e encontraram andando discretamente à frente da luminária de led uma barata. Era o que Marcão havia visto, o enorme vulto de uma barata. Meio contrariado o chefe fez um gesto e seus três comandados eficientemente capturaram a bichinha.

Os vizinhos no portão da casa de Marcão assuntando sobre aquele movimento todo, perguntaram aos seguranças que iam saindo sobre o ocorrido, mas nem precisou explicação, pois lá de dentro da casa Marquinho gritou:

— Oh… pai pode aparecer … eles já pegaram a barata!

José Milton Castan Jr. é psicanalista e escritor — www.psicastan.com.br

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