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Lista de livros, uma panorâmica

João Alvarenga

Se, em tese, no Enem a literatura, tanto nacional quanto estrangeira, não recebe um tratamento “VIP”, posto que os textos literários, segundo a queixa geral dos professores da área, são mal explorados na prova, com questões pífias que não despertam no alunado o interesse pelos bons livros, o mesmo não se pode dizer da Fuvest e Unicamp. Aliás, tradicionalmente, essas duas renomadas instituições apresentam uma considerada lista de leitura obrigatória de inúmeros autores, de épocas distintas e variados gêneros aos vestibulandos.

Desse modo, é bom lembrar que a referida lista é bem substanciosa, afinal, quem se dispuser a enfrentar esses dois grandes desafios terá que encarar mais de 20 obras literárias pela frente. Algo que, na verdade, exige fôlego, planejamento estratégico e boa vontade. Afinal, só as aulas que alguns cursinhos oferecem sobre os livros não dão conta de “mergulhar”, integralmente, nas estrelinhas de um autor tão complexo como Padre Antônio Vieira, cujo “Sermão da quarta-feira de cinzas” integra a lista da Unicamp, desde ano e também de 2019, juntamente com os profundos sonetos de Camões.

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No que se refere à Fuvest, da lista merece destaque o livro “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, obra que tem presença garantida, nesse processo seletivo, há muitos anos, pois é um texto que, embora escrito em 1930, pertencente à segunda fase do Modernismo brasileiro, não perde o frescor da atualidade, uma que a realidade da região nordestina ainda permanece quase inalterada.

Desse modo, também é digno de nota o livro “Claro enigma”, de Drummond, que, na visão do crítico Samuel Titan Jr., é um dos trabalhos mais maduros desse fundamental autor mineiro e que se contrapõe ao famoso “A rosa do povo”. Titan salienta: “é uma difícil de ler”, pois “A máquina do mundo” dialoga com Camões e Dante Alighieri. Aspecto que lhe confere um caráter universal.

Todavia, não são apenas essas únicas universidades que requisitam leituras obrigatórias de autores consagrados das letras nacionais, como de Portugal e, agora, também, do continente africano, como é caso do escritor angolano, Mia Couto, autor do emblemático “Terra sonâmbula”. Dentre as outras instituições que indicam leituras, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) chama a atenção por inserir autores com maior relevo no eixo rio-grandense.

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Assim, destaca-se, da lista da UEL, “Quarenta dias”, de Maria Valéria Rezende; já o romance “O mestre e o herói”, de Domingos Pellegrini, é solicitado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. A obra “Quarto de despejo”, de Carolina de Jesus, integra o rol da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Vez ou outra, os nomes de Érico Veríssimo, Alice Ruiz, Paulo Leminski, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu e “João Pacífico” ganham visibilidade nas provas do sul do país.

Ainda, entre os nomes de expressão nacional, as obras de José de Alencar, Machado de Assis, João Cabral, Clarice Lispector e Guimarães Rosa sempre são revisitadas em quase todos os vestibulares do país, devido à importância histórica e à complexidade com que abordaram temas universais. Para garantir um bom entendimento desses autores, além da leitura, é recomendável que os vestibulandos assistam às “videoaulas” disponibilizadas na internet, além de ler as análises críticas das obras.

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Ao finalizar esse “voo” panorâmico sobre as listas de livro, fica evidente que ferramentas, para ler e entender as obras, é que não falta. Contudo, precisa haver interesse pela leitura, já no primeiro ano do ensino médio, para torná-la prazerosa e não uma obrigação passageira. O porquê das listas será objeto do próximo artigo. Até lá.

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM 92,3 MHz, sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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