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Ler e viver

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e articulista da Agência Estado

Leandro Karnal

Em dezembro do ano que terminou, tive de renovar minha habilitação de motorista. Como em outras vezes, fui ao Poupatempo da Lapa (SP). Foi uma nova chance para eu sair bem impressionado pela organização, gentileza dos atendentes e eficácia. Tudo foi perfeito. Imaginando (meu pessimismo existe) uma demora que não ocorreu, levei dois jornais físicos e uma coletânea de contos russos. Mal li os editoriais do Estadão e já estava tudo feito.

Pertencemos a uma sociedade em que, quando as coisas funcionam, ficamos admirados. O que seria o básico para se esperar de qualquer serviço entre nós é motivo para uma profunda admiração.

Foco em outro ponto. Os serviços oferecidos lá são amplos e abarcam muitas faixas etárias e diversas camadas sociais. Ricos e pobres devem renovar a CNH ou fazer uma nova identidade. Havia evidências de grupos variados naquele espaço.

Também um dado em comum a muitas idades e pertencimentos sociais: todos ficaram o tempo todo ao celular, conferindo mensagens e ouvindo áudios. Nenhum livro, jornal ou, aparentemente, textos virtuais na tela. Saí feliz com a eficácia do Poupatempo e pensativo sobre o não uso da leitura como aliada em tais situações.
Andar de metrô em várias cidades europeias ou simplesmente em parques significa ver muita gente lendo. Algo óbvio: existe um incentivo mais forte lá, cultiva-se o hábito, percebe-se o caráter de boa “contaminação” doméstica e social. Seria apenas isso?

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Historicamente, temos baixo desempenho escolar médio. Com exceções notáveis, as escolas incentivam pouca leitura ou apenas produzem avaliações sobre livros de vestibular. No campo da exceção existem os professores e escolas notáveis que conseguem seduzir seus alunos para a viagem da leitura. Lembro-me da minha colega de literatura em um colégio de São Paulo, Marinez Rafaldini.

Era dedicada aos bons livros e incentivava muito que os alunos bebessem dessa água extraordinária. Na formatura, um aluno disse a ela: “Nunca esqueceremos da sua maneira de ler Manuel Bandeira”. Sim, uma poesia brilhante lida com entusiasmo e emoção, os olhos faiscando e um trabalho sistemático podem marcar a vida de um jovem. Fizemos peças teatrais sobre clássicos, dirigidas por mim e pelo professor Carlos Pelicia. Um “Pagador de promessas” ou um “Hamlet” levados ao palco são memórias indeléveis para aqueles jovens. Reencontro alunos pela vida; muitos fazem referência aos livros e ao teatro.

O hábito precisa de auxílio. Muitas livrarias possuem uma sala especial para leitores infantis. Ir com pai e mãe em um sábado e ler ou comprar algo para os pequenos produz uma experiência única. Ler em casa, contar histórias, levar a bibliotecas: tudo solidifica o projeto fundamental de estimular leitores. Amar, cuidar, orientar, fazer vacinas, alimentar, proteger e… ler são sete verbos essenciais da maternidade e paternidade responsáveis. E para nós professores o fundamental no esforço coletivo: selecionar um trecho, pensar em uma técnica, contar uma história fascinante, seduzir a turma com bons textos. Insistir, vencer resistências, subir na cadeira para declamar, colocar um adereço cênico, analisar de forma intensa, debater e, diante de caras desanimadas, entender que a resiliência é a chave. Alfabetização é um processo de vida toda e o momento escolar é uma parte importante.

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Ter um texto em mãos, em papel ou na tela, é encetar uma conversa interessante com alguém. Livros devem ser fator de crescimento, o que não significa serem fáceis. Crianças e jovens precisam de curadoria para que encontrem fontes estimulantes. Que riqueza ler, aos 15 anos, “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Depois, ver um filme com o tema do livro. Debater o conteúdo, a advertência do texto sobre autoritarismos, explicando o contexto e o objetivo do autor. O jovem tem conhecimento para ler em inglês?

Maravilha, Orwell é um mestre da língua. Advertência importante: se seu filho entender de fato a obra, há o risco de ele contestar uma ordem sua baseada na reflexão do autor. Seu filho quer algo distinto da sua determinação e invoca um autor clássico? Chore querido pai, emocione-se querida mãe, ele começou a pensar e adquirir autonomia. Este era o momento para o qual você o preparou e ele começou a ser alguém fora da sua sombra.

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Bendita rebeldia, abençoada irreverência que foge do narcisismo birrento e chega à elaboração de um argumento. Um irmão pediu algo e conseguiu e o outro não? Ele pode invocar o exemplo de Cordélia no “Rei Lear”: seu afeto é genuíno, porém sua retórica fraca. Ele quer sair sem rumo e diz que imitará o protagonista no “Apanhador no campo de centeio”? Ele ironizou a crença religiosa da família invocando “A cartomante”, de Machado de Assis? Reze pela alma dele, porém rejubile-se pelo crescimento intelectual.

Ler é atingir maioridade intelectual. Ler traz ideias, contesta versões, estimula autonomia. Ler retira da zona de conforto e provoca disrupturas existenciais. Ler é um passo na direção do infinito e um caminho sem volta na busca de si e de sentido. Se você quer total tranquilidade e senso comum dominante, evite livros, fuja de bibliotecas e afaste seu filho do livro e do perigo de pensar. Ele será um adulto opaco, cinzento, acomodado, dirá coisas comuns e terminará a vida tranquilo, gravando áudios no celular esperando seu documento ser feito. É preciso ter esperança e alguma leitura.

Leandro Karnal é historiador e articulista da Agência Estado

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