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Invisíveis para quem?

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
Invisíveis para quem?
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

Heródoto descreveu a história, Platão a transformou e Eduardo Giannetti produziu “O Anel de Giges” (Cia das Letras). Um homem descobre um anel mágico que o torna invisível e passa a fazer coisas novas em função da sua condição. Giges chega ao trono da Lídia graças ao artefato mágico. Perguntas importantes derivadas da narrativa: quem seríamos, se ninguém nos observasse? O que faria um governante, se não tivesse medo de ficar com má fama em função das decisões tomadas? Ou, no dizer do livro de Giannetti: quem é quem é?

A ficção serve, em Platão e Eduardo, para compor um pensamento que nos leva a questionamentos. Quanto existe em você, querida leitora, ou em você, estimado leitor, que depende do olhar alheio? José Saramago propôs que um mundo sem visão seria um universo muito distinto do nosso (“Ensaio sobre a Cegueira”). A perda do olhar e da sua carga de juízo crítico já abalaria toda nossa composição social. Imagine se alguém pudesse escapar de todos os olhares, mantendo o seu próprio? Que ética seria suficientemente madura e equilibrada para proclamar sua independência de todos os valores e vigias alheios? Há resquícios de Giges e das suas perguntas no livro “Robinson Crusoe” (Daniel Defoe) ou na personagem Kurtz, de Joseph Conrad (“O Coração das Trevas”). Ressonâncias da nossa autonomia moral (ou seu oposto) abundam em livros e filmes. A pandemia mudou alguns hábitos sociais e algumas pessoas já perceberam que o simples fato de fazer home office já reorganiza o mundo. Giges ronda o Kurtz de cada um de nós.

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O livro de Eduardo Giannetti nasceu de um sabático usufruído em Tiradentes (MG) para se dedicar à escrita. Admirei a decisão, pois ela possibilitou que a já consagrada capacidade do autor (com textos como “Trópicos Utópicos” e “O Valor do Amanhã”) encontrasse a boa ocasião, fortuna e virtù. Competência com recolhimento produtivo é algo que pode mudar o mundo. De alguma forma, Giannetti usou um anel de Giges para escrever seu livro. O Kurtz de Conrad perguntava como ser o mesmo sem vizinhos a reforçar ou reprovar seu comportamento. A linda Tiradentes não é aldeia ao longo do rio Congo, porém, se não invisibilizou, ao menos deu um ar translúcido ao redor. O pensar filosófico nasce de um estranhamento do mundo usual, um afastamento que proporciona perspectiva.

O livro “O anel de Giges” é brilhante em muitas passagens. Trata-se da clássica leitura fertilizadora, algo que provoca novas perguntas e nos desinstala da certeza. O mito clássico é ampliado, dialogando com o Cristianismo. Com Rousseau, renova-se por completo. Depois, passamos a formas dialógicas (cap. 33) na estrutura platônica. Por fim, uma escrita de vanguarda, de estocadas firmes no cap. 35 e final. Não existe tédio na obra.

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Evitando um radicalismo pós-moderno, Giannetti opta pelo caminho do conhecimento da verdade como possível. O bem não seria intangível, já muitos cínicos (no sentido moderno) hipertrofiam o mal na sua realidade. Incorre-se o que Charles Peirce identifica como “a ética do entendimento”. Nas palavras literais do livro sobre Giges: “a honestidade parece conter algo de tóxico e irritante à pele e ao olhar de quem nela não crê. Às vezes, é preciso arrancar a máscara ao desmascarador. Sóbrio realismo não é o mesmo que cinismo” (p. 211).

É curioso como muitas pessoas identificam a análise crítica como um desnudar de todas as boas intenções. Sempre brilha a ideia enunciada de Oscar Wilde: “Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter”. A frase é correta para desmascarar as hipocrisias, denunciar farisaísmos e revelar tartufos. O problema seria considerar que toda ética é cênica e todo o mal autêntico. Parece que os que acreditam em uma natureza malévola acabam parecendo mais inteligentes e os adeptos de ética ficam como moralistas ingênuos, como se fossem o Cândido de Voltaire.

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Uma das melhores rotas para um texto é a seguida por Giannetti. Pega uma ideia clássica, mostra sua forma original, amplia bastante, estabelece questionamentos e desenha um arco que o leitor percorre com a alegria de viajante curioso. É uma jornada intelectual de alto nível. O típico livro que lamentamos quando termina, como um companheiro agradável de diálogos notáveis e felizes.

A todo instante, a pergunta da p. 230 reverbera: que Giges sou eu? Em tempos de redes sociais em que o supremo anel é o de likes, a invisibilidade parece ser um desafio curioso. O mais interessante, pensei, é que nossas redes constituem uma forma de desaparecer da vista de todos para colocar um manto evanescente muito especial: o ser público e politicamente correto, agradável a todos e com muita felicidade. A máscara atual de vida bem-sucedida é a mais potente forma que o anel de Giges encontrou. Desaparecemos do olhar de todos e do nosso e passamos a sorrir nas fotos. Estaremos a salvo para cometer nossas perfídias? Boa semana a quem ainda consegue se ver.

Leandro Karnal é historiador e escritor.

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