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Ide e dialogai, não!

21 de Março de 2021

Dom Julio Endi Akamine

Recebi um comentário sobre o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica: “Jesus não disse: Ide e dialogai; e sim: Ide e evangelizai!”

Esse comentário revela uma compreensão de evangelização em contradição com o diálogo. Será ela correta? A evangelização exclui por si mesma o diálogo? O anúncio explícito de Jesus Cristo como Salvador absoluto proíbe que o evangelizador entre em diálogo com os fiéis de outras religiões? O diálogo inter-religioso é uma desobediência ao mandato missionário de Jesus aos discípulos: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15)?

Para responder a essas questões, convido o leitor a recordar o que S. João Paulo II ensinou na quaresma de 1979, no início do ministério pontifical. A missão da Igreja é de fato evangelizar. Tal missão, porém, não se realiza desprezando as outras tradições religiosas. O papa S. João Paulo, nesse sentido, recordou que o documento do Concílio Vaticano II dedicado às religiões não cristãs é um “documento cheio de estima profunda pelos grandes valores espirituais, ou melhor, pelo primado daquilo que é espiritual, e que encontra na vida da humanidade a sua expressão na religião. Justamente os padres da Igreja viam nas diversas religiões como que germes do Verbo” (RH 11). Em outras palavras, a evangelização nunca é uma ação destruidora dos elementos positivos presentes nas religiões não cristãs ou de imposição de uma fé.

Quando falamos de diálogo, é preciso levar em conta uma riqueza de significados importante para a sua prática. Em primeiro lugar, diálogo significa comunicação recíproca, para alcançar um fim comum e também uma comunhão interpessoal. Em segundo lugar, o diálogo pode ser considerado como uma atitude de respeito e de amizade, que está presente, ou deveria estar presente, em todas as atividades que constituem a missão evangelizadora da Igreja. Em terceiro, no contexto de pluralismo religioso, diálogo significa o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outros credos para um conhecimento mútuo e um recíproco enriquecimento, na obediência à verdade e no respeito à liberdade (cf. DA 9). Compreendido nessa riqueza de significados, o diálogo não se contrapõe ao anúncio, nem constitui uma ação alheia à evangelização.

Diálogo é também evangelização, e a evangelização inclui, como elemento integrante, o diálogo.

Existem formas diferentes de diálogo inter-religioso. Há o diálogo da vida, onde as pessoas se esforçam por viver em espírito de abertura e de boa vizinhança, compartilhando as suas alegrias e tristezas, os seus problemas e as suas preocupações. Há o diálogo das obras, onde os cristãos e os outros colaboram em vista do desenvolvimento integral e da libertação da gente. Há o diálogo dos intercâmbios teológicos, onde os peritos procuram aprofundar a compreensão das suas respectivas heranças religiosas, e apreciar os valores espirituais uns dos outros. Há o diálogo da experiência religiosa, onde pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto (DA 42).

O diálogo requer uma atitude equilibrada tanto da parte dos cristãos como da parte dos seguidores das outras tradições. Não deveriam ser nem demasiado ingênuos nem hipercríticos, mas abertos e acolhedores (DA 47).

Isto não significa que, ao entrar em diálogo, devam ser postas de lado as próprias convicções religiosas. Pelo contrário, a sinceridade do diálogo inter-religioso exige que se entre nele com a integralidade da própria fé. Ao mesmo tempo, permanecendo firmes na sua fé em Jesus Cristo, os cristãos não devem esquecer que Deus também se manifestou de certo modo aos seguidores das outras tradições religiosas (cf. DA 48).

Além disso, a plenitude da verdade recebida em Jesus Cristo não dá aos cristãos, individualmente, a garantia de terem assimilado de modo pleno essa verdade. A verdade não é algo que possuímos, mas uma pessoa por quem devemos nos deixar possuir. Embora mantendo intacta a sua identidade, os cristãos devem estar dispostos a aprender e a receber dos outros e por intermédio deles os valores da própria fé em Cristo. Assim, mediante o diálogo, podem ser induzidos a vencer os preconceitos, a rever as ideias preconcebidas e a aceitar, por vezes, que a compreensão da sua fé seja purificada (cf. DA 49).

Longe de enfraquecer a fé, o verdadeiro diálogo aprofunda-a no cristão. Assim o cristão que dialoga poderá tomar maior consciência da própria identidade cristã e compreender mais claramente os elementos distintivos do Evangelho. A sua fé se abrirá a novas dimensões, ao mesmo tempo em que descobre a presença operante do mistério de Jesus Cristo para além dos confins visíveis da Igreja e do rebanho cristão (cf. DA 50).

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba.