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Guarda Mirim de Sorocaba

Artigo escrito por Antônio Farto Neto, Promotor de Justiça da Infância e Juventude de Sorocaba

Antônio Farto Neto

Conheci um grande empresário de Sorocaba, bom amigo, bom pai de família, perspicaz nas lidas comerciais e, como muitos comerciantes, um empreendedor na essência.

Certa vez fui até sua casa, uma belíssima casa, e fiquei imaginando: será que herdou o negócio do pai? Qual teria sido o “milagre” por trás daquele homem tão bem-sucedido?

Aos poucos nossa amizade se estreitou um pouco e, por trás de uma personalidade extremamente simples, pude perceber um homem trabalhador. Esse seria o segredo.

Não herdou patrimônio, nem ganhou na loteria. Conquistou seus bens e seu lugar na sociedade simplesmente trabalhando, trabalhando muito. Com certeza o exemplo veio dos pais operários, não há dúvida.

Mas seria “só isso”… ?

Sem dúvida o caráter fez diferença. A honestidade cultuada ao longo dos anos no mesmo ramo de negócio. O apoio da família que retribui com amor todo seu empenho para o bem-estar de todos.

Seria também a sagacidade, ou seria a paciência? Seria a perseverança? Ou seria apenas sorte nos negócios?

Um dia, meio que por acaso, ele me revelou uma parte desse segredo.

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Estávamos em uma reunião de condomínio e ele me disse que quando menino, quase virando adolescente, estava meio que se encaminhando para abandonar a escola e ficar pelas ruas com os amigos do bairro. Não tão bons amigos…

Seus pais trabalhavam o dia todo e, como era normal naquela época, não dispunham de tempo para acompanhar a rotina diária dos filhos. Foi então que, conforme me disse, operou-se o “milagre”: ele entrou para a Guarda Mirim de Sorocaba.

Assim abandonou as más companhias, passou a ter orgulho de estar estudando, melhorou seu comportamento na sociedade, sentindo-se útil e importante. Tinha orgulho da farda de Guardinha Mirim, de poder trabalhar para ajudar no sustento da casa, para ter seu próprio dinheirinho e para começar a materializar seus sonhos.

Se não tivesse me mostrado, juro por Deus que não acreditaria. Mas ele me mostrou: traz guardada na carteira, com o maior orgulho, junto de seus documentos pessoais, a antiga carteirinha de Guarda Mirim.

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A adolescência é um momento mágico na vida de qualquer pessoa. Um momento muito importante na formação da personalidade que está para se definir, e que, muito provavelmente, acompanhará essa pessoa pelo resto da vida. Ficam para trás as brincadeiras e a ingenuidade infantil para o início da fase adulta.

O trabalho, nesse momento inicial da vida adulta, é fundamental.

É no trabalho que a ciência se concretiza. Tudo que se aprendeu na escola e que até então parecia vago ou inútil, passa a ser importante ferramenta para a solução dos problemas enfrentados no dia a dia. É no trabalho que os valores insculpidos no seio da família são colocados à prova. É no trabalho que o jovem delimita, sonha e inicia a concretização de seu projeto de vida.
A Guarda Mirim de Sorocaba foi essa ponte mágica para muitos jovens de Sorocaba.

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Aliás, no livro Biblioteca Sorocaba, Francisco Martins Soler conta que certa vez, o Guarda Mirim Irapuã Costa Oliveira, de 12 anos, órfão de pai e mãe, que morava com o avô Mauro José da Costa, encontrou um cheque ao portador de mais de mil cruzeiros e o entregou ao seu instrutor, justamente ele, o tenente Soler, que, por sua vez, entrou em contato com o Banco Itaú, promovendo a devolução ao legítimo dono.

Entrevistei outro dia o Irapuã. E ele me disse que fizeram até uma solenidade no Ipanema Clube para elogiar sua atitude. Na cerimônia ele ganhou uma bicicleta de presente. Ficou surpreso, só fez o que tinha aprendido que era certo. Hoje ele também é um empresário bem-sucedido de Sorocaba.

Antônio Farto Neto é Promotor de Justiça da Infância e Juventude de Sorocaba.

Excepcionalmente, deixamos de publicar neste domingo o artigo do arcebispo metropolitano Dom Julio Endi Akamine. O referido artigo será publicado na edição da próxima quarta-feira (9).

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