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Filmes da Netflix: ‘Quando a vida acontece’

Artigo escrito por Nildo Benedetti
Filmes da Netflix: ‘Quando a vida acontece’
A atriz alemã Lavinia Wilson no papel de Alice: desempenho contido, de grande efeito emocional, com o mínimo de teatralismo. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

Este longa-metragem de 2020 da austríaca Ulrike Kofler trata de um tema já muito explorado no cinema, o de relacionamento de casais na maturidade. Porém, neste caso, o relacionamento de Alice e Niklas, na casa dos 40 anos, é governado essencialmente pela impossibilidade de conceber um filho. Após algumas tentativas malsucedidas de fertilização, a obstetra sugere que deem um passo atrás, reconsiderem os planos de vida e façam uma viagem de férias. Decidem então viajar à ilha italiana da Sardenha, que haviam visitado há alguns anos. À época, Alice engravidara e o casal optara pelo aborto.

Nós, homens, temos uma ideia vaga e imperfeita da experiência da maternidade para uma mulher como Alice. Talvez a perda de continuidade da vivência dessa experiência abruptamente truncada pelo aborto seja, pelo menos em parte, a origem da sua obsessão pela maternidade. Niklas, de sua parte, parece mais preocupado em satisfazer a mulher do que atender a uma necessidade pessoal de ser pai.

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Ao se instalarem na Sardenha, Alice e Niklas serão vizinhos de outro casal austríaco. O marido Romed é empresário metalúrgico e a mulher é astróloga. O casal parece feliz, razoavelmente abastado e aberto ao contato com Alice e Niklas. Tem dois filhos, o que parece despertar algum desgosto em Alice: a pequena Denise e o adolescente David, de 13 anos, sombrio, isolado, sempre em conflito com os pais. Romed e a esposa confessam que têm inveja de Alice e Niklas por não terem de enfrentar a perda da liberdade e os constantes aborrecimentos e preocupações trazidos por filhos.

Niklas e Romed começam a fazer vários tipos de atividades juntos, mas Alice não tem o que falar com a vizinha astróloga. Porém, o contato que mantém com a menina Denise e com David, parece fazê-la assumir momentaneamente o papel de mãe.

Para o casal, a estadia na Sardenha será apenas a continuidade da vida na Áustria, ideia que é reforçada pelo fato de terem vizinhos austríacos, com hábitos austríacos. Assim, as férias acabam sendo o estopim de uma crise. Emergem antigos ressentimentos acumulados e camuflados ao longo do tempo. Competem no jogo de tênis, na escalada de montanha, sobre quem é o culpado por Alice não engravidar.

As idas e vindas da reforma da casa assumida por Alice é metáfora da própria tentativa de reconstrução da vida do casal, que sinaliza ir à frente, para logo depois retroceder por causa de conflitos que têm, direta ou indiretamente, a maternidade como mote. Mas, a tentativa de suicídio de David e a acusação falsa da menina Denise à mãe, dizendo que Alice havia assumido a tarefa cuidar dela no mar, parecem leva-la a pensar com maior racionalidade sobre a vida encantada de mãe. De volta a Viena, ela parece se reatar afetivamente à casa: “Podemos pôr uma janela aqui? (…). Espero que nunca nos tirem esta vista”, indicando que um recomeço se vislumbra ao casal, como havia sido previsto pela médica. Em rápidos flashbacks, vemos cenas da viagem feliz que haviam feito anteriormente à Sardenha. Por isso, a ilha é o local ideal para um recomeço de vida, para voltar ao princípio e tomar um novo rumo.

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Na próxima semana escreverei sobre “Pieces of a woman”.

Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec

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