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Filmes da Netflix: ’Perfeitos desconhecidos’

01 de Maio de 2020 às 00:01

Filmes da Netflix: ’Perfeitos desconhecidos’ Os filmes expõem os paradoxos das relações de casais contemporâneos. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti - [email protected]

Em 1916, o diretor italiano Paolo Genovese dirigiu a comédia “Perfeitos desconhecidos”, já apresentada pelo Cine Reflexão na Fundec. Duas versões com mesmo título e trama similar foram dirigidas em 2017 pelo espanhol Álex de la Iglesia e em 2018 pelo mexicano Manolo Caro. O francês Fred Cavayé dirigiu em 2018 uma terceira versão com o título “Nada a temer”. A versão italiana não está na Netflix.

A rigor, deveríamos escrever separadamente sobre as três comédias disponíveis na Netflix. Mas, existe nelas uma parcela comum de conteúdo sério e é desse conteúdo que tratarei neste artigo.

O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu o já consagrado conceito de Sociedade Líquida, caracterizada por grande instabilidade e volatilidade que se manifestam na veloz obsolescência de produtos de consumo, nas instáveis relações de trabalho, no desmonte da segurança gerada pelo estado de bem-estar social, nas amizades que são criadas e descartadas com um clique nas redes sociais.

A instabilidade e a insegurança se propagam em todas as esferas da vida, incluído a amorosa. A incerteza que rege as relações conjugais na sociedade contemporânea, que Bauman chamou de Amor Líquido, é um caso particular da Sociedade Líquida. A durabilidade incerta dos vínculos conjugais está ligada à busca sem tréguas pelo prazer, que torna indesejável qualquer relação que impeça o pleno gozo da liberdade pessoal, que é naturalmente restringida pelo casamento. A liberdade no mundo contemporâneo é o valor pelo qual todos os outros valores são avaliados, escreve Bauman.

Os casais dos três filmes veem o casamento como restritivo da liberdade pessoal e aspiram a safar-se dele. Mas, ao mesmo tempo, tentam sustentá-lo alegando várias razões (filhos, resíduo afetivo etc.). Para resolver o paradoxo, cometem adultérios e pecadilhos libertadores e, simultaneamente, tentam dar sobrevida às uniões usando seu talento criativo na invenção de histórias para explicar mensagens comprometedoras nos celulares. O jogo da verdade não só testemunha a degradação das relações com os anos, como também evidencia o fato de que, para salvar a instituição do casamento, o jogo se converte em um jogo de mentiras.

Mas, ao lado da deterioração dos casamentos com o tempo, o filme adiciona os filhos como problema de magnitude progressiva: um casal feliz com a possibilidade de ter o primeiro filho, outro casal feliz pelo fato de terem dois filhos pequenos carinhosos e o casal hospedeiro vivendo a incômoda condição de ter que lidar com uma adolescente.

No filme “O eclipse”, Michelangelo Antonioni trata da incomunicabilidade e tédio da vida de casais burgueses. Em “Perfeitos desconhecidos”, a incomunicabilidade se dá entre casais da classe média, também durante o eclipse. Na maior parte das culturas, o eclipse prenuncia acontecimentos funestos, como aqueles que sucederam no jantar. Ele é metáfora do que poderia perfeitamente ter ocorrido se o jogo dos celulares tivesse sido realizado. Cessado o eclipse, a vida continua a mesma tragicomédia.

Na próxima semana escreverei sobre “Minha obra prima”.