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Filmes da Netflix: “Paixão inocente”

Artigo escrito por Nildo Benedetti
Keith (Guy Pearce) e Sophie (Felicity Jones): caso extraconjugal que termina com conformismo e dor. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

“Paixão inocente” é um filme de 2013, do diretor norte-americano Drake Doremus. A família Reynolds do filme parece razoavelmente estável, a despeito das insatisfações que, em menor ou maior grau, encontramos em todas as famílias. Keith, o pai, ganha a vida dando aulas de piano um tanto a contragosto, porque seu desejo é o de mudar para Nova York e se tornar violoncelista da Filarmônica daquela cidade. Mas a esposa prefere a tranquilidade da pequena cidade onde vivem. O casal educa a filha de 17 anos.

As coisas se alteram quando a família abriga a talentosa pianista Sophie, uma inglesa de 18 anos, que veio aos Estados Unidos para estudar na escola da filha de Keith. Logo de início, um clima de sensualidade se estabelece entre Keith e Sophie que gradualmente conduz a uma relação extraconjugal que ameaça fazer desmoronar a família.

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“Paixão inocente” discorre sobre um tema muitas vezes tratado no cinema: determinado padrão familiar é perturbado e rearranjado a partir da ocorrência de um evento estranho a ela. No caso do filme, é Sophie que desempenhará o papel de alterar aquele padrão.

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Na semana passada analisei nesta coluna o documentário “Cenas de um homicídio – uma família vizinha”. Levantei a hipótese de que a relação extraconjugal de poucas semanas de Chris Watts com Nichol Kessinger, associada a uma série de outros fatores de origem menos ou mais remota, poderiam ter levado Chris a eliminar cruelmente a mulher grávida e duas filhas de 4 e 3 anos de idade do casal.

“Paixão inocente” e “Cenas de um homicídio” têm alguns aspectos similares — como o de mostrar a feição dolorosa do amor –, mas me deterei sobre as consequências das relações extraconjugais na vida dos dois homens.

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Keith, do primeiro filme, e Chris, do segundo, vivem a fase da paixão, aquela em que amamos a pessoa pelo que achamos que seja e não pelo que ela realmente é. O apaixonado está convencido de que conhece perfeitamente a pessoa amada, ignorando que não conhecemos aos outros e nem a nós mesmos. O contato com a realidade, que vem com o convívio, pode fortalecer o amor, criando uma relação feliz, embora com todos os problemas de qualquer relação. Mas, o convívio pode também destruir a fantasia que fez idealizar o ente amado e transformar a paixão, o jogo de sedução e o arrebatador amor inicial naquilo que observamos na vida cotidiana: relação sem amor, desilusão, amargura, mentiras, ciúme, traição, indiferença e até de ódio contínuo.

O comportamento humano se transforma quando a paixão entra no jogo. Em um comportamento extremo, temos Chris, de “Cenas de um homicídio”, que extermina brutalmente a família para realizar sua paixão com a amante que conheceu há poucas semanas. No outro extremo, está Keith, deste “Paixão inocente”, que resolve abandonar a família e mudar para Nova York com Sophie. Porém, no último momento, desiste do projeto. Ele renuncia à realização da sua vocação de violoncelista, em troca da segurança da vida familiar. As fotografias que a família Reynolds tira no início e no fim do filme mostram que tudo permanecerá como está, para sofrimento da pobre Sophie.

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Na próxima semana escreverei sobre “Ao cair da noite”.

Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec

 

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