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Filmes da Netflix: “O dilema das redes” (Parte 2 de 7)

Artigo escrito por Nildo Benedetti
Filmes da Netflix: “O dilema das redes” (Parte 2 de 7)
A sede da Microsoft no Vale do Silício. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

Desde o nascimento, temos a necessidade biológica básica de depender de outras pessoas para sobreviver e estabelecer relações sociais. Por isso, há milhões de anos nos reunimos e vivemos em comunidades com diversas finalidades.

Esse convívio nos dá prazer, segurança e afeta o nosso humor ou, como diz a ciência médica, libera dopamina como recompensa. As mídias sociais conseguem levar ao extremo a possibilidade de conexão entre seres humanos e, por isso, provoca no indivíduo a vontade de recorrer constantemente a elas.

Se perguntarmos a alguém quais os danos provocados pela indústria da tecnologia, obteremos uma lista enorme: vício de uso das redes, fake news, polarização política, religiosa, de opiniões, depressão, suicídios, influência nas eleições etc. Como esses danos ocorrem simultaneamente, é razoável supor que exista um padrão na forma de atuação das mídias, que produzem esses efeitos que afetam a vida de mais de dois bilhões de pessoas por todo o mundo

Podemos tentar descobrir qual seja esse padrão fazendo uma pergunta: o que estimula um indivíduo a recorrer constantemente às mídias, mesmo sabendo dos danos que elas provocam? Ao acionarmos com o dedo para cima ou para baixo a tela de qualquer mídia social, encontraremos informações e imagens novas que podem nos levar a dois tipos de comportamento: 1) estimulam nosso interesse, porque se alinham às nossas ideias, ou 2) tendemos a ignorá-las porque contrariam o que pensamos.

Porém, para as empresas de mídias sociais, que pretendem reter nossa atenção, apenas a primeira possibilidade tem valor comercial. A motivação de acesso a elas só tem sentido se o indivíduo encontrar constantemente alguma coisa que seja de seu interesse. Como a mesma informação despertará reações diferentes em cada indivíduo, o sucesso do negócio da tecnologia da informação dependerá de dar a cada indivíduo ao que ele dedicará mais tempo de observação.

Portanto, as mídias sociais não têm por objetivo informá-lo sobre os valores necessários à formação ética ou intelectual de crianças e adultos ou ao bom convívio em sociedade — respeito por ideias contrárias, tolerância racial, política, religiosa etc. — mas o de alimentá-lo com informações que confirmem seu ponto de vista sobre esses assuntos. A esse estímulo do interesse gerado pelas mídias sociais, a Psicologia Comportamental chama de Reforço Positivo Intermitente. Reforço positivo ocorre quando um acontecimento provoca alguma coisa agradável para o sujeito, ou seja, quando algo que ele deseja é apresentado como resultado de um certo comportamento que ele adotou. Este resultado positivo aumenta a chance de que esse comportamento se manifeste em situações semelhantes. O hábito de um indivíduo de recorrer às mídias sociais é aumentado quando elas confirmam suas ideias e, portanto, servem de reforço positivo para ele continuar a acessá-la. Assim é que, quando abrirmos nossas linhas do tempo no Facebook não veremos as mesmas atualizações de nossos “amigos”. Cada pessoa tem acesso a uma realidade feita sob encomenda, especialmente montada para ela, independentemente de ser falsa ou não.

Continua na próxima semana.

Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec

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