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Filmes da Netflix: “My happy family”

Filmes da Netflix: “My happy family”
Afastamento de Manana da família melhora sua relação com o marido. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

O conjunto de valores, costumes, crenças, instituições e práticas que constituem o modo de vida de um grupo específico são construções sociais. As construções sociais são uma progressiva produção humana em um processo em que a sociedade determina o comportamento do indivíduo e é, ao mesmo tempo, determinada por ele. À primeira vista, contudo, as construções sociais não parecem criações de seres humanos, mas verdades absolutas, o que pode nos levar a acreditar na “lógica” de nossas instituições e na estupidez das instituições de outras comunidades, porque se a verdade está conosco, quem é diferente está errado.

A instituição familiar é uma construção social que age sobre o meio e é influenciada por ele. Seu funcionamento pode não ser perfeitamente compreendido fora da cultura em que foi formada, porque será interpretado por nós através do filtro de nossa própria percepção. Portanto, não podemos apreender em profundidade o sentido das relações familiares deste “My happy Family”. Elas nos parecem um tanto excêntricas, porque são parte de uma cultura que nos é estranha. Mas, a partir de conceitos universais da psicologia que regem o comportamento humano, podemos formular hipóteses sobre o que leva Manana a se isolar e deduzir quais foram, para ela e a família, os ganhos e perdas de sua atitude. Estamos, de partida, rejeitando a hipótese simplista de que “My Happy Family” mostra caminho da libertação da mulher numa sociedade machista e opressora.

Na família de Manana todos se preocupam com todos e essa coesão é forte a ponto de o ambiente familiar parecer confuso; de fato, inicialmente temos até dificuldade de entender as relações de parentesco e identificar filhos, genros, noras, porque tratam-se uns aos outros de forma igualitária. Ali convivem três gerações que ilustram a própria mudança da instituição do casamento das últimas décadas: a mais velha, indissolúvel, embora em atrito permanente, a mais nova volátil. Manana e o marido estão na condição intermediária.

Não sabemos exatamente por que Manana se afasta da família, talvez nem ela mesma o saiba, mas parece motivada a sair desse estado de confusão para respirar alguma individualidade e privacidade. Mas a forte consciência familiar — dela e da cultura — chama-a de volta às demandas da família.

A terapeuta familiar Lynn Hoffman associou o processo de transformação da família ao funcionamento de um caleidoscópio, que mantém o mesmo padrão geométrico até que uma partícula mude de posição e altere todo o padrão para outro inteiramente novo. O desarranjo nas relações familiares, que gera sofrimento, pode também ter efeitos construtivos. Todos os familiares de Manana resistem à mudança, ancorados nas tradições culturais de manutenção de casamento, preocupação com o que os amigos dirão etc., mas sua atitude melhora a família. Ela mesma se torna mais próxima, mais falante. E o marido, que inicialmente recorrera ao irmão para dissuadi-la de sair de casa, agora pede que ele a deixe em paz.

O final inconclusivo sustenta a impossibilidade de desligamento radical de Manana, mas, ao mesmo tempo, faz-nos prenunciar transformações positivas na família.

Na próxima semana escreverei sobre “A sun” (“Um sol”)

Está série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec.

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