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Filmes da Netflix: “La Valija de Benavidez” (Parte 2 de 3)

Artigo escrito por Nildo Benedetti
Filmes da Netflix: “La Valija de Benavidez” (Parte 2 de 3)
Donorio (Norma Aleandro) e Corrales (Jorge Marrale): protagonistas do cruel mercado das artes plásticas. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

Nos artigos que escrevi nesta coluna sobre “Minha Obra Prima” e “Um Cidadão Ilustre” expus as ideias sobre arte que os dois filmes didaticamente apresentavam. O que se segue utiliza alguns daqueles conceitos e completa com outros aplicáveis a “La Valija de Benavidez”

O grande desafio da carreira de um artista plástico é ser visto e chamar a atenção. A qualidade da sua obra não é o único elemento determinante do seu reconhecimento público no mundo da arte. A validação de uma obra envolve uma série de outros personagens: crítico, marchand, curador, galerista, instituições. Os colecionadores utilizam-se das informações desses especialistas para estabelecer um preço que assegure o retorno do seu investimento. Portanto, o preço vem de parâmetros que não são exclusivamente ligados ao valor estético da obra, uma vez que tem forte dose de especulação financeira. A rebeldia social que cerca a visão romântica que se tem do artista é concedida dentro de limitações estabelecidas por um sistema que tem regras: manter relacionamento cordial com a crítica, submeter-se às exigências de eventos sociais, manter-se à disposição da imprensa e assim por diante.

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Essas condições a que o artista se vê submetido acabam por determinar os comportamentos apresentados no filme: a arrogância e ignorância dos que têm poder de decidir carreiras e a submissão dos que dependem deles, o esnobismo, os artistas que se vestem de modo incomum para mostrar que são únicos, a falsidade descarada nas relações, a inveja mal contida. “O mercado financia qualquer idiota” afirma Lisa.

Na Arte Moderna, objetos comuns, banais, foram transfigurados em obras de arte. Foi o que ocorreu com o urinol de Duchamp, de 1917, que recebeu o título de “A Fonte”; e com a “Merda de Artista”, de 1961, guardada em 90 pequenas latas pelo italiano Piero Manzoni e vendidas como obras de arte.

Essas obras da Arte Moderna podem ser preservadas em museus. Contudo, na Arte Contemporânea, a novidade é mais valorizada do que a perenidade e para se tornar relevante na vida de uma sociedade de consumo, a arte deve se manifestar mais como um evento — o que justifica a ocorrência de modalidades de arte como instalações, performances, etc. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou a sociedade contemporânea de Sociedade de Consumidores, que ele ilustrou como Sociedade Líquida. É caracterizada por instabilidade, incerteza e insegurança. É consumista, vive o momento presente e torna tudo rapidamente descartável e transitório. Nessa sociedade, tudo se transforma em mercadoria sujeita às regras do mercado e a obra de arte não é exceção.

Corrales concebe a mala de Benavidez como reprodução da violência no seu estado mais selvagem, extraordinária combinação entre horror e beleza. Mas é obra de duração limitada. No conto de Samanta Schweblin, o corpo já está cheirando mal e no filme existem indícios sutis desse fato.

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Ver o filme como metáfora das regras desumanas do mercado de modo geral e do mercado das artes plásticas em particular é uma das suas inúmeras possibilidades interpretativas. Corrales e Beatriz são manipuladores desse mercado especulativo e Benavidez uma das suas vítimas.

Conclui na próxima semana.

Está série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec

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