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Filmes da Netflix: Ao cair da noite

Artigo escrito por Nildo Benedetti
Paul (Joel Edgerton) é membro de uma civilização que está se extinguindo e dando lugar à barbárie. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

“Ao cair da noite”, do diretor norte-americano Trey Edward Shults começa com um homem com feridas abertas no corpo, portador de uma doença incurável que está provocando mortes em massa e mata o infectado em poucas horas. O homem falece, deixando a filha, o genro e o neto Travis, de 17 anos. Todas as portas e janelas da casa em que vivem são cuidadosamente fechadas. Os membros da família estão munidos de vários tipos de armas. O perigo está sempre presente e todos os estranhos, que são raríssimos, são vistos como inimigos e devem ser mortos.

A fim de discorrer sobre o filme, farei breve referência à obra “Leviatã”, de 1651, do filósofo inglês Thomas Hobbes. Nessa obra, Hobbes afirma que os homens são naturalmente violentos e tendem a se manter em estado de guerra permanente uns com os outros. Chamou essa condição geral a que são submetidos os seres humanos de “estado de natureza”. No estado de natureza, escreve Hobbes, não existem noções de bem e de mal, de justiça e injustiça; logo, nada é injusto.

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Os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida pela própria força e invenção. A força e fraude são as virtudes fundamentais nessa guerra. Motivado pelo medo dessa situação, o homem utiliza a razão para obter um acordo com todos os outros homens que lhe assegure a paz.

Por meio desse acordo, os indivíduos renunciam ao direito de usar a própria força e transferem para uma única pessoa ou para um grupo de pessoas o direito legítimo de usar a força. Cria-se, assim, o Estado, por meio do qual se processa a transformação do estado de guerra civil permanente, o de guerra de todos contra todos, ao estado de cultura.

De acordo com essas noções, só existe civilização onde existe Estado. Norberto Bobbio afirma que a hipótese de Hobbes fundamenta a teoria moderna do Estado.

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“Ao cair da noite” é a tradução das ideias de Hobbes para o cinema. Contudo, no filme, não se trata de uma sociedade em que o Estado ainda não existe, mas de uma sociedade em que já não existe mais Estado. Cada um se preocupa exclusivamente com si próprio e com a família.

E, voltando mais no tempo, a sociedade do filme vê-se obrigada a se adaptar a uma condição imprevisível, a de que se encaminha para deixar de existir. A partir desse raciocínio, o filme possibilita uma interpretação apocalíptica que é sugerida por uma reprodução, exposta no quarto de Travis.

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É “O Triunfo da Morte”, uma pintura do artista Pieter Bruegel, o Velho (1526 1569), baseada nos livros bíblicos do Apocalipse e do Eclesiastes, que mostra o exército da morte avançando e deixando apenas destruição e desolação, exterminando tudo e todos, sem que a fé, a classe ou a posição social possam salvá-los.

Em “Ao cair da noite” estão disseminadas a fome, a peste, a guerra e a morte, os quatro cavaleiros do Apocalipse (a guerra é a de todos contra todos a que Hobbes se referiu).

No extremo inferior direito da obra de Bruegel, vemos um casal de amantes que permanece indiferente ao futuro que os aguarda. O casal faz lembrar o bondoso Travis observando – porém não indiferente, mas atônito – as misérias do ser humano e a sua iminente extinção.

Na próxima semana escreverei sobre “Clair Obscure”.

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Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec

 

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