Ferinha
Crédito da foto: Neusa Gatto
Neusa Gatto
Fite, Fite... hoje você vai passear. Diz a moça, que ele se gaba ser “sua serva”. Decidida, ela cata a caixa de transporte e já me coloca lá dentro. Mio, mio, mio. Arranho as paredes. Mordo a portinhola. Calma garoto, fala ela tranquila. Mexe no meu nariz. Afaga minha orelha. Mas, não quero conversa.
Continuo a me esgoelar. E ela nem aí. Logo estou no banco do carro chacoalhando na caixa em cima do banco, indo pra algum lugar.
Que saco! Quero ir pra casa! Neste momento de agonia, começo até a achar que ficar com o maluco do Chiconauta é melhor que aqui. E, bem vi a olhada que ele deu pro Mestre antes da gente sair. Tipo... já vai tarde. Sei! Ciumento. Não da moça que me mima até! Mas da amizade que já tenho com o Tigre. Dos conselhos que ele me dá. As broncas... tipo: não vem não!
Como balança essa casinha. Deslizo pra lá e pra cá. Ih... acho que...sim, fiz xixi.
Já levo bronca logo que chegamos. Fite, molhou tudo aqui dentro. Escuto ela dizer me segurando de longe com minhas patas molhadas.
E então... - mãe, fica um pouco com o Fite pra eu dar uma volta? Não quis deixar ele sozinho na casa pra não ter briga por lá.
- Mãe? Penso sem entender.
- Nossa como ele cresceu!!! Fala a senhora.
- É... tá grandinho e ferinha!
Ferinha? Eu? Só porque tenho uma personalidade dominante com perfil destacado de liderança?
- Mãe, deixa ele lá dentro porque ele não tá acostumado a ficar fora.
E, fico lá.
Não demora e ela tá de volta.
- Graças a Deus você voltou, diz a mãe no portão da casa.
- Por que? Pergunta logo a moça.
- Ah, esse gato não é gente. Não deixou ninguém ficar dentro de casa. Era ir num cômodo e ele vinha: fuáaaaa... fuáaaaa. Ia pra outro lugar a mesma coisa. Então, deixamos ele trancado lá dentro e a gente aqui fora.
Ouço o burburinho da conversa e me aquieto num canto do sofá. Só o olhar prescrutativo denuncia minha bronca naquele momento. Me deixar num lugar estranho, gente estranha, cheiros estranhos....humpf!!!
- Muito bonito Fite, diz a minha salvadora. Queimou legal um lugar pra eu deixar você quando precisar sair.
Dou de ombros. Vamos embora logo, penso. Quero arrumar umas brigas com o Chiconauta. Deixar o Tigre limpar minhas costas. Correr atrás de borboletas. Arranhar, arranhar, arranhar aquelas árvores...
E, então, de novo o chacoalhar do carro. Deslizo pra lá e pra cá feliz. Estamos a caminho de casa, espero.