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Entre o pão e o vício nosso de cada dia

Edgard Steffen fala sobre o Dia Nacional de combate ao Fumo
Entre o pão e o vício nosso de cada dia
Crédito da foto: Vanessa Tenor

Edgard Steffen

29 de agosto Dia Nacional de combate ao Fumo

Nesta, que será a última crônica do agosto dourado, deveria continuar escrevendo sobre a importância da amamentação na saúde da criança. Para não cansar leitores(as) busco novo tema. Encontro referência à lei nº 7488, promulgada em 1986. Instituiu o Dia Nacional de Combate ao Fumo, para conscientização sobre os males do tabagismo e mobilização do povo brasileiro no combate ao vício de fumar.

Busco na padaria o pão nosso de cada dia. Quentinho, cheiroso…e caro. Desde que me conheço por gente, o preço acompanha o dólar. Você está feliz por não lhe faltarem reais para comprar aquela delícia. Como todo mundo gosta de pão quente, vão buscá-lo na hora da fornada. A pequena fila do balcão transforma-se em grande fila nos caixas. Você quer chegar logo em casa para devorá-lo. Sua boca se enche de água só em pensar na manteiga derretendo ao calor do miolo. De repente a fila que você escolheu enrosca. Não por falta de troco ou crédito. Alguém resolveu levar maços de cigarro. O caixa precisa sair até a prateleira fechada onde ficam, ao abrigo dos olhos da freguesia, as marcas comercializadas pela padaria. Adeus pãozinho quente com manteiga derretida! De costas, o(a) fumante do renque não vê…mas você o(a) fuzila com os olhos.

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Sou ex-fumante. Ocasional na puberdade, inveterado na idade adulta. No ginásio fui apresentado ao cigarro, vendido a granel nos bares entorno das escolas, e ao rapé. Para zoar professores incapazes de manter disciplina (raros), aspirávamos o pó negro na sala de aula para provocar salva de espirros e as consequentes “Saúde!”. Na adolescência, meninos maus das boas famílias fumavam a fim de parecer mais velhos. Caso fossem vistas soltando fumaça pelas ventas, meninas/moças seriam rotuladas “más” ainda que fossem de famílias boas.

O cinema, diversão democrática e universal, incrementou o tabagismo. A indústria do fumo pagava para atores e atrizes fumarem em cena. Era o merchandising da ocasião. Humphrey Bogart, Clark Gable, John Wayne, Yul Brynner entre os homens e Lauren Bacall, Joan Crawford e Bette Davis eram tabagistas inveterados. Bogart morreu de câncer de esôfago, Wayne de câncer de pulmão, Gable e Crawford de infarto; o enfisematoso Yul Brynner de câncer de pulmão e a também enfisematosa Bete Davis sucumbiu por câncer de mama.

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Na 2ª Grande Guerra, maços de cigarros faziam parte do farnel dos combatentes. No lado escuro e tenebroso da guerra, o Eixo tomava decisões bélicas em ambiente claro. Mussolini e Hitler não fumavam. Em compensação as reuniões da clara aliança do bem acabavam escuras pela fumaça dos cigarros de Roosevelt, do cachimbo de Stalin e do indefectível e inseparável charuto de Churchill.

O fumo era subliminarmente estimulado. O “star system”, fazia do cigarro instrumento de “sex appeal”. Dos líderes e soldados vinha sensação de força, coragem e poder.

Fumar virou moda. As consequências — limitadoras do tempo ou qualidade de vida — apareceriam anos depois. Cânceres de pulmão, arteriosclerose, infarto, doenças cardiovasculares e o incapacitante enfisema multiplicaram-se e passaram a ocupar os primeiros lugares entre causas de morte.

A nicotina vicia mais rápido que a cocaína. O fumante passivo, isto é, aquele que convive com quem fuma, está sujeito aos mesmos males que o tabagista. Governos perceberam que, no tratamento das doenças ligadas ao tabagismo, gastavam mais do que arrecadavam com impostos aplicados no cultivo, fabricação e comercialização de cigarros e congêneres. Apesar da resistência lobista, implantaram leis de alerta ao fumante ativo e proteção ao passivo. Regulamentada em 2014, entrou em vigor a Lei Antifumo (nº 12546 2011). E a lei pegou! Proibiu fumar em ambientes públicos ou privados, baniu fumódromos e cerceou propaganda de cigarros. Tornou o fumante socialmente inconveniente.

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Voltando à fila do pão… Quem compra cigarros consegue ser inconveniente, mesmo sem fumar perto de você.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço – edgard.steffen@gmail.com

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