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Eleições no País do Futuro

Artigo escrito por Edgard Steffen, médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul
Eleições no País do Futuro
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Brasil é um País aonde o Futuro nunca chega
(José Nêumamne Estadão 11/11/2020 A2)

Arre! Terminou a propaganda política obrigatória! Nada contra o direito de expressão em todos os níveis e à oportunidade de exibir propostas atraentes aos eleitores. O compromisso em cumpri-las fica para o futuro. Se, por um passe de mágica, pudéssemos fundir todos os postulantes num só indivíduo (sínteses dos candidatos ao Legislativo e Executivo), e ele realizasse tudo que foi prometido, viveríamos no paraíso perdido por Adão&Eva, com vantagens do conhecimento e do conforto. Paraíso recuperado inimaginável pelo mais arguto dos futurólogos.

Um amável guarda em cada esquina. Nenhuma criança sem creche ou fora de escola; cuidadas por professores muito bem treinados e muito bem pagos (como deveriam ser) e equipados com tablets, celulares, note-books e quejandos. Mobilidade urbana de primeiro mundo; magníficos coletivos rodando sob tarifa gratuita ou quase de graça. Unidades básicas de saúde sem filas; exames subsidiários à vontade; cirurgias eletivas idem. Cada bairro com seu ambulatório de especialidades e hospital bem equipado, com acesso sem sustos, espera ou custos. Nos imensos parques, muito bem cuidados e paisagismo burlemarquiano, famílias poderiam passear a qualquer hora, praticar esportes, caminhadas, corridas, ciclismo. Impostos minimizados para que sobre mais ao consumo que, por sua vez, mova o comércio, a indústria, a construção civil e gere pleno emprego. Nenhuma favela. Os menos ricos morando em conjuntos habitacionais com plena infraestrutura. Raros moradores de rua (por opção) e nenhuma fome. Nenhum lixo nas ruas. O centro velho revitalizado de fazer inveja aos shoppings…

Vamos parar por aqui, porque o céu é o limite. Recursos é que não o são. Os possíveis eleitos, se já não aprenderam, aprenderão que num país como o nosso, recursos são inferiores às carências. A máquina estatal costuma ser dinossáurica e pantagruélica. Os eleitos terão que governar com os caraminguás que sobram na burra e evitar a burrice de escolher mal onde aplicá-los. Aos eleitores, torcer para que eleitos governem para o bem de todos, não apenas para o partido que os elegeu.

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O primeiro voto — equivale ao sutiã do comercial criado por Washington Olivetto — a gente nunca esquece. Lembrei-me disso ao ouvir e ler cronistas de peso desfilando seu envolvimento com as eleições.

Alexandre Garcia¹, do alto dos seus oitenta anos completados esta semana, orgulhosamente relembra a adolescência e sua ascensão na mídia. Chegou a ancorar o mais famosos telejornal do País, coordenar debates entre candidatos presidenciáveis e assessorar o último presidente do regime militar. Desfila seus votos dados, vencidos, perdidos.

No Estadão, Sérgio Augusto² lembra da coleção de “santinhos” apanhados na rua, e dos candidatos do PTB, PSD, UDN. Melhor que isto, relembra neologismos e modificações semânticas criadas na luta democrática pelo poder. Motes famosos como “Vote no Brigadeiro é bonito e é solteiro” usado na campanha de Eduardo Gomes da UDN (União Democrática Nacional). O cronista cita neologismos “jangar” (votar em Jango Goulart) e “cristianizar” (abandonar candidato à própria sorte). Para derrotar Eduardo Gomes, muitos do PSD descarregaram seus votos em Getúlio Vargas.

Não cristianizei. Minha estreia como eleitor aconteceu na eleição de 1950. Votei em Eduardo Gomes, não pela aparência física nem pelo atributo “solteiro” (escondia o machismo “sem mulher para atrapalhar”).

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Na eleição anterior, torci pelo marechal Eurico Gaspar Dutra (PSD). Cheguei a ostentar na lapela do paletó o distintivo do partido: mapa do Brasil, cruzado em diagonal pelas letras PSD. Acompanhei meu pai, amigo e compadre do dr. Luiz Gonzaga Novelli Jr. que, por sua vez, era casado com enteada do candidato Dutra.

Não me arrependi da torcida por Dutra. Pode ter sido governante medíocre… mas respeitava e nada decidia sem consultar o “livrinho”, como ele apelidava a Constituição vigente.

1 — “De Brasília, Alexandre Garcia”, 11/11/2020 — You Tube

2 — Sérgio Augusto — “Urnas proustianas”– Estadão — 07/11/2020

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul.

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