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E no entanto é preciso cantar

Artigo escrito por Carlos Brickmann, jornalista
E no entanto é preciso cantar
Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (6/3/2019)

Carlos Brickmann

Estamos quase no Carnaval — e a tristeza que a gente vê não dá sinais de acabar. Um cavalheiro se defende numa CPMI insultando uma repórter de prestígio — e só agiu desse jeito porque achou fácil ofender uma mulher. E o pior vem em seguida: o presidente da República com piadinhas de duplo sentido, também atacando a repórter como mulher. Janaína Pascoal, que é do partido de Bolsonaro e deputada mais votada do país, acusou-o de “inegável grosseria”. Janaína foi uma das proponentes do impeachment de Dilma. Outro, o jurista Miguel Reale Jr., foi mais fundo: acha que, por ferir o decoro, Bolsonaro já está sujeito a impeachment. O tal River do Rio ofender, Sua Excelência brincar com o tema, e há ainda pior: a militância bolsonarista mobilizada para também ofender a repórter. Como diz Janaína, bolsonaristas são petistas com sinal trocado. Lula preso, Lula livre, e quem pacifica o país?

Na clássica “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, Vinícius de Moraes e Carlos Lyra lembram que é preciso cantar — e não se limitar a xingar — para alegrar a cidade. Com gente “que nem se sorri, se beija ou se abraça”, como se vai fazer um país? Um presidente que se propõe a ser “conservador nos costumes” se dá ao desfrute de ofender mulheres, só porque mulheres são? E, nos intervalos, fazer brincadeiras de cunho sexual com pessoas orientais?

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Lula também gosta dessas brincadeiras — como a que fez com sua mais fiel seguidora, Clara Ant. Decoro, senhores! Há crianças e senhoras na sala.

Amigas, amigas

Janaína, advogada que não aceita essas brincadeiras, disse que não é bolsonarista: aliou-se a Bolsonaro por achar que era quem tinha chance de derrotar o lulismo. Joga duro: disse a Bolsonaro, na convenção do PSL, que era fiel ao Brasil, não a ele, e que em sua opinião os bolsonaristas não passavam de petistas ao contrário. “Disse isso há um tempão”. E disse-o a Bolsonaro na convenção, olhos nos olhos. “Jamais menti ao então candidato e agora ao presidente.” O perigo é que ela age quando acha que deve.

Moro, na filosofia

Mas, se o clima não é de confraternização, de Carnaval, há frases que, nos velhos filmes carnavalescos da Atlântida, se encaixariam com perfeição. Em Brasília, no dia 11, a deputada federal Carla Zambelli se casou com o coronel Antônio Aginaldo de Oliveira, diretor da Força Nacional de Segurança. Sergio Moro a saudou: disse que ela, mesmo sem ter feito curso de PM, mereceria ostentar um caveirão — aquele símbolo do Bope, uma caveira com uma faca enterrada no cocoruto. Carla Zambelli retribuiu a gentileza: dançou a valsa (“La vie en rose”) com Moro, enquanto o noivo dançava com a esposa de Moro, Rosângela. Um caveirão, quem diria, dando resultado tão meigo.

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É difícil encontrar gente mais chata que a turma do politicamente correto: agora, valem-se da Internet para atacar a atriz Alessandra Negrini por estar fantasiada de índia no bloco em que desfilou em São Paulo. Acusam-na, veja, de “apropriação cultural”. Odeiam aquilo que sempre marcou o Carnaval: a liberdade de pular com a fantasia que lhe der vontade. No caso, a coisa ainda é mais engraçada: ela visitou há pouco uma aldeia em Caraíva, Bahia, e quis homenagear os pataxós da aldeia. Para a turma do politicamente correto, a Terra pode ser redonda ou plana, tanto faz: eles querem é que seja bem chata.

BNDES, fica assim?

O presidente Bolsonaro, durante toda sua campanha, prometeu a abertura da “caixa preta” do BNDES. Agora é presidente há um ano… e o BNDES surgiu com uma auditoria externa que analisou oito dos negócios do banco e concluiu que neles não há caixa preta. Claro que o BNDES não realizou apenas oito negócios nos 13 e poucos anos dos governos Lula e Dilma, os alvos preferenciais de Bolsonaro; nem isso significa que, nos governos mais antigos, tudo tenha ocorrido sem qualquer irregularidade. Três delas estão documentadíssimas no livro “Caixa Preta do BNDES”, de Cláudio Tognolli e Bernardino Coelho. São três casos exemplares: aplicações financeiras em que empresas amigas teriam se beneficiado, em troca daquelas ideias de construir “campeões nacionais”; e um bom exemplo, documentadinho, em que o BNDES é acionista de uma empresa privada que se destinava a ser a maior fabricante de pás para energia eólica do mundo, e à medida que a firma perdia posição a parcela de capital do BNDES aumenta e a dos sócios privados se reduz. A empresa fechou, e quem é seu acionista majoritário?

Carlos Brickmann é jornalista. E-mail: carlos@brickmann.com.br

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