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Dos que cuidam e dos que são cuidados

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
Dos que cuidam e dos que são cuidados
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

O assunto chama a atenção. Já escrevi sobre isso no longínquo ano passado. Nunca tive contato com uma plena exceção. Talvez exista, apenas reconheço meu desconhecimento. Em todo casal (e toda família) há jardineiros e flores, os que cuidam e os que são cuidados.

O jogo é quase automático. Ambos encontram prazer nas suas searas. O jardineiro (ou a jardineira) vive pensando na água e no sol que incide sobre as plantas, no adubo exato e na luta contra as pragas. A rosa cuidada abre-se ao sol e aceita a água com variados graus de gratidão. Um elege zelar como destino e identidade. O outro reconhece ser cuidado como um estado natural, quase subatômico da ordem do universo.

Os casos variam muito. Você os conhece, querida leitora e estimado leitor. O casal entra no quarto do hotel depois de longa viagem. A rosa (ou o cravo) se atira na cama, exausta. O jardineiro abre as malas, procura o cofre, liga para a recepção para saber sobre o café da manhã, repassa o roteiro do dia seguinte, faz a reserva do restaurante. A flor sorri diante da agitação do jardineiro. Beneficiada pela inquietação dele, insiste que relaxe, que não se preocupe. Contraditoriamente, emite sinais de satisfação de não precisar zelar por aquela lista enfadonha da agricultura do par.

O drama do jardineiro é a falta de autoconhecimento. Ele assume as tarefas porque gosta, cuidar implica controle e eleva a importância de si e para si. Raramente, permite que alguém faça sua cota de trabalhos. Todavia, reclama que está sozinho, que tudo está sobre ele, que ninguém mais pensa nas coisas práticas, que os outros vieram ao mundo a passeio e ele, a trabalho. Torna-se pesado porque sempre fica agitado, rodopiando para lá e para cá como um rato envenenado (expressão imaginativa da minha amiga Sylvia). O drama do jardineiro é ficar sobrecarregado pelo peso dos tijolos que ele, metodicamente, coloca na própria mochila.

O drama da flor é ser vítima da dependência que a infantiliza e alegra. Ela quer o jardineiro leve e demanda, com olhar sequioso, a ação contínua. As flores são mais leves do que os que trabalham por elas. A leveza pode estar associada à inconsequência.

É um drama previamente acordado e mutuamente satisfatório. Porém, flor e jardineiro entreolham-se com raiva, por vezes. Analise o jogo teatral: ambos possuem toda a força para mudar o enredo e cenário, porém, decidem que são protagonistas da peça e querem vê-la da plateia como se nenhuma relação tivessem com o drama. Preferem ser críticos a assumir seu papel de autores.

E as habilidades? São como pedras de Sísifo no jogo. “Só a Joana faz malas com perfeição!” Pronto! A infeliz jardineira está condenada a fazê-las até o dia do Juízo Final. Como é um jogo, já o disse, Joana reclama, sem cessar, do peso de ser a “maleira da família”. Porém, mal o marido começa a arrumar quatro camisetas para a viagem, ela despeja uma catarata de críticas que ele não as enrolou em delicados tubos que liberem espaço e confiram a aparência de capitéis clássicos à valise. Os dois polos do entretenimento psíquico são: a) tudo recai sobre minhas costas cansadas; b) ninguém é tão eficaz como eu sou.

É drama da sua querida família ou do seu abençoado casamento, ó minha querida jardineira e meu caro vegetal? Não vamos nos dar tanta importância. O jogo das plantas e dos horticultores está descrito nos evangelhos. O capítulo dez de Lucas fala de duas irmãs da aldeia de Betânia: Marta e Maria. Jesus vai visitá-las. Maria está encantada com o mestre e fica ouvindo, absorta e inerte. Marta é a zelosa jardineira que deseja o bem-estar do seu hóspede. Lava, limpa, serve comidas. Como é comum na sua categoria, vendo que não a observam no seu sacrifício, a irmã se irrita. Pede que Jesus obrigue a ouvinte tranquila a imitá-la.

Jesus a recrimina e diz que Maria escolheu a parte boa, que nunca lhe será tirada. O Mestre fica ao lado da rosa e ataca a jardineira. Jesus e Maria, provavelmente — imaginação infame minha –, estavam lá comendo o pão que Maria amassou, beliscando as azeitonas oferecidas, tomando da água e do vinho. Acham Marta estressada, mas aproveitam muito do resultado da azáfama.

Maria vira modelo da vida contemplativa e Marta é retrato da vida ativa. Mais: Santa Marta é celebrada todo dia 29 de julho como padroeira das donas de casa e das faxineiras, bem como de todos os hoteleiros do mundo. Marta, recriminada por Jesus por ser prática e atarefada e ter abandonado o privilégio de ouvir o Mestre, é também aquela que pede a Ele que traga o irmão Lázaro de volta à vida. Diante do pedido direto de Marta (a quem ele amava, o Evangelho não deixa dúvidas), Jesus realiza o milagre narrado no capítulo 11 de João.

O jogo do jardineiro e da flor é complexo e não existe em estado puro. Algumas flores auxiliam em pequenos tratos na terra. Jardineiros se irritam e deixam de fazer algumas coisas para que sua importância seja notada. A flor inteligente sabe elogiar incessantemente o zelo de quem cuida. Objetivo? Acalmar o narciso agrícola. É uma relação complexa. Como eu já disse, nunca conheci um casal em que ambos fossem rosas ou jardineiros totais. Quando muito, há zonas delimitadas para a jardinagem de cada um.

Assim, em cada casa há uma bela roseira e um orgulhoso cuidador. Um não existiria sem o outro. Que essa crônica traga paz a ambos na vocação que escolheram e que levam adiante todo dia. É preciso ter esperança nas flores e no trabalho do jardineiro.

Leandro Karnal é historiador e escritor.

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