Dos pediatras aos brasileiros
27 de julho Dia do Pediatra Brasileiro
A data comemora a fundação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Criada por Fernandes Figueira (1910) para estudo dos problemas e das patologias da infância. Hoje, conta com mais de 22 mil associados e inclui em seu desiderato a família e o ambiente em que vive o menor.
Carlos Prado -- 1º professor de Pediatria da Faculdade de Medicina de Sorocaba -- trouxe para a SBP todo o Departamento de Pediatria da APM* (1951). Nas aulas abordava temas comuns à época: desnutrição, desidratação, verminoses e anemia, diarreias e pneumonias, doenças contagiosas e imunizações, prematuridade e mortalidade infantil. Indignado, comparava a mortalidade infantil da Suécia (em torno de 10 por mil nascidos vivos) com nossos vergonhosos coeficientes com cifras de 3 dígitos.
No final do Século 20, a tecnologia e o desenvolvimento havia reduzido nossas taxas de mortalidade aos níveis europeus. Administrações equivocadas, associadas a interminável crise política, trouxeram de volta desemprego, aumento da pobreza, ressurgimento de doenças erradicadas e incremento no coeficiente de Mortalidade Infantil.
Para que meus leitores conheçam a posição da SBP transcrevo sua "Nota aos Brasileiros":
"É preciso juntar forças contra a mortalidade infantil. É extremamente grave e preocupante o anúncio feito pelo Ministério da Saúde de aumento na taxa de mortalidade infantil no Brasil, o que interrompe um ciclo de queda contínua desse indicador que já durava 26 anos.
Na avaliação da Sociedade Brasileira de Pediatria, a epidemia de zika vírus e os efeitos da crise econômica no País sobre a população não podem ser considerados como os únicos responsáveis pela alta desse indicador. Para tanto, devem ser empreendidos esforços das autoridades sanitária, para entender as causas reais dessa tendência e adotar ações estratégicas para revertê-la.
A SBP tem continuamente alertado o Governo e os gestores dos Sistema Único de Saúde (SUS) acerca dos inúmeros problemas que, certamente, podem ter influenciado o aumento desse número. Dentre eles, se destacam a falta de recursos e de infraestrutura para funcionamento da rede pública de assistência; a desvalorização dos profissionais que prestam cuidados (médicos e demais membros das equipes); o desmonte das equipes especializadas no atendimento de crianças, sobretudo nas salas de parto e nos primeiros anos de vida; e a dificuldade de acesso dos pacientes aos serviços de saúde (consultas, exames, internações e cirurgias).
Na avaliação de futuros cenários, também não se pode ignorar fatores como a baixa cobertura vacinal e o risco do aumento da incidência de doenças infectocontagiosas (sarampo, meningite, tuberculose, sífilis congênita, dentre outros).
O País está diante de um quadro multifatorial, que atinge a parcela mais frágil e vulnerável das famílias, cuja superação depende de um esforço conjunto de Governo, médicos, profissionais da saúde, organizações da sociedade organizada e cidadãos.
Como contribuição para o debate que deve ser imediatamente inaugurado, a SBP prepara um documento com propostas a serem implementadas pelo Governo -- atuais e futuros. O texto, que será entregue às autoridades federais e aos candidatos às Eleições Gerais de 2018, aponta, entre outros pontos, a necessidade urgente de que toda criança e sua família conte com o suporte de um pediatra no pré-natal, na sala de parto e no acompanhamento que se estende do nascimento ao fim da adolescência.
Entende-se que o cumprimento dos pontos inseridos nesta pauta é indispensável ao País para que a construção de uma Nação mais justa, ética e saudável, com pleno atendimento das necessidades das futuras gerações a partir de agora."
(*) Associação Paulista de Medicina
(**) SBP 16/07/2018, RJ
Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - [email protected]