Dona Anunciata
Neusa Gatto
Dona Anunciata vivia na janela. A casa, uma daquelas antigas, que dão pra rua. Porta lateral. Janela acima e um porão embaixo, com aquela pequena tela de ferro pra ventilação.
Acotovelada no parapeito, a senhora italiana observava os que passavam pela calçada. Muitos paravam para conversar. Trocar uma ideia. Nesses momentos, Tom, o seu cachorro, ficava ali aos seus pés, quieto, dormitando.
Morava só. Nas casas ao lado, parede e meia com ela, havia os filhos. Um com família e outro numa mecânica de carros.
Ela pouco saia. Aos 85 anos, saúde frágil e problema nas pernas, usava sua bengala quando ia pra rua. Na guia, o fiel companheiro, Tom.
Ia à venda ou quitanda e voltava, na mesma marcha vagarosa.
Com o tempo, já não se via Anunciata pelo bairro. Cansava. Doíam-lhe as juntas. O que precisava era trazido em casa. Assim, seu contato com o mundo se resumiu às notícias que os vizinhos levavam ali, pra ela, na janela.
E muita coisa havia acontecido desde que viera da Itália com o marido. Um dos primeiros moradores daquele lugar. Do tempo que a rua era de terra. Sem água encanada, esgoto... quando ainda tinha horta no quintal, poço, uma parreira de uva...
Agora era tudo novidade. Contavam a ela da avenida que seria aberta perto do rio que cruzava a vila. Da estação de trem que começava a ser reformada. Deste ou daquele que morreu. Outros que nasceram. Assim, a vida passava velozmente fora do seu dia a dia.
Seis da tarde, a janela já era fechada. Lá dentro, Anunciata esquentava sua janta. Uma sopa, um caldo. Não gostava de comida pesada antes de dormir.
Antes das nove, já estava na cama a ouvir seu rádio de cabeceira. Uma rotina de anos, desde que ficara viúva e nunca mais voltara a casar.
E, então, um dia, a janela não se abriu de manhã. Os filhos não se deram conta. Mas, a vizinhança sentiu. Os que estavam acostumados a papear com a velha senhora estranharam. Talvez gripada? De cama?
Mas, lá dentro os latidos aflitos do cachorro chamavam a atenção. Tom, latia, latia, latia. O que será que tem esse cachorro? Pensavam os vizinhos...
E, com tanta insistência do pequeno cão, bateram à porta. Nada. Como Anunciata tinha o ouvido fraco, insistiram. Nada ainda. Só Tom a latir. Um dos filhos veio com a chave. Entraram e, num instante, o cão os guia pra dentro do quarto. Na cama, como se dormisse, Anunciata. Deveria ter falecido um dia antes.
Todos se olharam sem dizer nada. Só o cão se movimentou. Pulou na cama, se aninhou ao lado de sua dona e então se aquietou. Como se cumprisse a última missão por sua companheira de tantos anos...
Neusa Gatto é jornalista, produtora de vídeos e escreve para o Cruzeiro do Sul.