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Do orgulho de ser sorocabano

Do orgulho de ser sorocabano
Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS

Edgard Steffen

Agosto continua sendo mês especial em minha vida. Nele, cheguei a esta terra rasgada. Nele iniciei minha jornada de 70 anos com Adélia Hortência. Num 13 de agosto, regressei a Sorocaba, após dois anos de medicina de roça, plena de experiências gratificantes, amadurecedoras e orientadoras em seu conteúdo. No seco mês dos ventos e das queimadas, nasceram pessoas importantes para mim — duas primeiras netas, minha irmã Dolores e meu sogro Joaquim Prestes de Barros. Este, amava e tinha orgulho de sua terra e suas gentes; transbordava para familiais e descendentes seu amor à cidade. À sua memória, dediquei e reparti a Comenda Matheus Maylasky, a mim outorgada neste 30 de agosto.

Sacolejando no “expresso de Campinas”, no cair da noite de 16/8/1950, considerei a hipótese de não me adaptar à Manchester Paulista. Pareceu-me velha e escura. Havia dentro em mim saudade antecipada dos amigos indaiatubanos nos esportes, bailes e convívio. Na ingenuidade da juventude recusava deixar minha zona de conforto.

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Residiria com meu irmão, Lauro, funcionário da recém-inaugurada agência do Banco do Estado de São Paulo. A hospitalidade fraterna tornava possível meu sonho de estudar Medicina. O curso médico exigiria dedicação plena, impeditiva de exercer trabalho fixo com remuneração compensatória. Claro que precisaria vencer a barreira dos vestibulares.

Levei algum tempo para perceber que Sorocaba, com seus 115 mil habitantes, era uma Indaiatuba em ponto maior. Dez vezes maior. Tinha quatro cinemas, dois no Centro. Os filmes vinham para cá bem mais depressa que à única sala de minha cidade. A praça principal abrigava quatro clubes. Tal como em minha terra de origem, havia serviço de alto-falantes para animar o footing. As moças mais bonitas da cidade faziam seu vai-e-vem da esquina da rua São Bento até as proximidades do Cine Caracante. Havia um centro cultural Brasil-EEUU onde pude melhorar meus parcos conhecimentos de inglês. O Gabinete de Leitura Sorocabano punha a meu alcance obras-primas da literatura universal. Dois jornais diários e emissora de rádio cuidavam das atualidades e do entretenimento musical.

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Estas reminiscências invadiram-me a mente enquanto, pego de surpresa, improvisei o agradecimento pela outorga da medalha cultural.

Meu irmão bancário seguiu sua carreira em outras praças. Fiquei por aqui. Aos poucos, captei o espírito acolhedor da Terra Rasgada. A Faculdade surpreendeu. Curso muito bem estruturado, professores no auge de suas respetivas carreiras. Turmas pequenas (50 alunos) proporcionavam que os docentes nos conhecessem pelos respectivos nomes e temperamentos. Além dos conhecimentos técnicos, nos instruíam na liturgia da profissão médica.

Criei raízes em Sorocaba. Aqui constitui família. Aqui pude exercer minhas missões de médico, cidadão, cristão. Hoje, em minha Indaiatuba restam sobrinhos e suas famílias. Deles me orgulho e recebo manifestações de carinho. Dos amigos, pouquíssimos continuam em condições de interação.

Quis a Divina Providência conceder muitos anos à minha vida. Deu-me tempo para acrescentar muitos amigos. Outorgaram-me título de cidadania, honraram-me com assento na Academia Sorocabana de Letras, abriram-me este sabatino espaço e, agora, adornam meu currículo com a mais importante medalha cultural da terra de Baltazar Fernandes.

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Em meus guardados, encontro poema em caprichado manuscrito elaborado por monjas beneditinas.* Transcrevo.

Conta no teu jardim flores e frutos,

mas não contes as folhas que tombaram.

Conta os teus anos pelas horas de ouro,

não pelas que falharam.

Pelas estrelas conta a noite.

E a vida pelos triunfos, não pelos perigos.

Não contes tua idade pelos anos,

mas sim pelos AMIGOS.

 

Seja este, meu jeito de dizer “Obrigado, Sorocaba!”

(*) Traduzido do inglês (Abadia de Santa Maria)

Edgard Steffen é médico pediatra e escritor. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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