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Dia Nacional de Combate ao Fumo: querem manipular a atenção dos jovens

Artigo escrito por Éric Diego Barioni, coordenador do curso de Biomedicina e professor na Uniso e Conselheiro no Conselho Regional de Biomedicina da 1ª Região (CRBM-1)

Éric Diego Barioni

Enquanto que no dia 31 de maio celebramos o Dia Mundial sem Tabaco, no último dia 29 de agosto de 2020, no Brasil, foi celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Anualmente, 8 milhões de pessoas no mundo morrem devido a causas relacionadas ao tabagismo e, em tempos de pandemia por Sars-CoV-2, o tabagismo, além de facilitar a contaminação entre os usuários, traz, ao indivíduo que fuma e aos fumantes passivos, complicações de saúde que poderão aumentar as chances de desenvolvimento de quadros mais graves de Covid-19.

É por este motivo que o Instituto Nacional de Câncer (Inca), diante do cenário de saúde atual — com a pandemia do novo coronavírus representando uma das maiores crises globais dos últimos tempos –, optou por trabalhar o tema: tabagismo e coronavírus. Contudo, para a campanha do Dia Mundial sem Tabaco 2020, a Organização Mundial da Saúde propôs outro tema, também relevante, e que é o de proteger os jovens da manipulação da indústria e prevenir o uso de produtos do tabaco e nicotina.

Segundo os dados que foram obtidos em 2019 pela Vigitel, a frequência média de adultos que fumam cigarros tradicionais nas 26 capitais dos Estados brasileiros e Distrito Federal variou em 4,4% para Teresina a 14,6% em Porto Alegre. Em São Paulo, a frequência de 13,5%, variou para homens em 15,6% e 11,7% para mulheres. No conjunto das 27 cidades, a frequência de adultos fumantes foi de 9,8%, sendo maior no sexo masculino que no feminino. Na avaliação temporal do indicador, que leva em consideração os resultados que foram obtidos no período entre 2006 a 2019, a pesquisa indicou uma tendência de evolução favorável à diminuição da frequência de adultos fumantes. Por fim, vale ressaltar que, diferentemente dos adultos com idade entre 25 a 64 anos, no total da população, a frequência de fumantes entre os adultos jovens (de 18 a 24 anos de idade) e com 65 anos ou mais foi menor e, de maneira inversamente proporcional, no total da população, a frequência de adultos que são fumantes passivos no domicílio foi justamente maior entre os adultos jovens.

Os números que estão descritos acima demonstram claramente os benefícios que foram alcançados pela interrupção das propagandas de cigarro, da inclusão de mensagens de alerta em embalagens e pontos de venda e da regulamentação de leis que impediram o uso de cigarros em ambientes fechados, por exemplo. Porém, ainda que os números estejam diminuindo e a frequência de fumantes entre os adultos jovens seja menor, a indústria do fumo tem manipulado a atenção de nossos jovens, visando modificar esta realidade.

Direcionado aos adolescentes, as táticas enganosas da indústria do tabaco envolvem, por exemplo: o marketing indireto em filmes, séries e programas de TV, o patrocínio de celebridades e influenciadores digitais, o uso de sabores e odores atrativos, o design, que moderno e elegante, torna o produto atraente e enganoso. Entre outras coisas, as campanhas irresponsáveis que visam, além de divulgar o produto em pontos de venda que são frequentados por crianças — aliás, estes produtos muitas vezes estão próximos de doces, lanches, refrigerantes e escolas –, sem evidências científicas, minimizar os danos à saúde que poderão ser provocados pelo uso do dispositivo.

Dia após dia, e de maneira cada vez mais precoce, os jovens estão utilizando os produtos do tabaco e nicotina em dispositivos como narguilé e cigarro eletrônico, e políticas públicas de saúde que visem coibir a propaganda indireta, a venda e o consumo são importantes para a manutenção do cenário atual de redução temporal do uso do tabaco e nicotina.

Éric Diego Barioni (eric.barioni@prof.uniso.br) é coordenador do curso de Biomedicina e professor na Uniso e Conselheiro no Conselho Regional de Biomedicina da 1ª Região (CRBM-1).

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